Dinheiro de doação para uma vida cultural livre

Capítulo V

Agora pensemos a respeito dos impostos e da indústria de armas.

Aqui novamente nós podemos fazer descobertas importantes sobre a natureza da situação social fora de nós, e a nossa própria atitude mental.

Através de inúmeros canais e de inúmeras formas, o governo suga mais da metade da renda nacional, passando-a, de muitos modos, para órgãos públicos, para instituições culturais como subsídios e para as deficitárias organizações com maior ou menor controle governamental. Uma enorme máquina oficial é empregada para a observação diária da receita, sua manipulação e seu re -direcionamento. Na maior parte dos países industrializados, o governo parece um monstro insaciável tirando para si uma parte cada vez maior dos rendimentos.

“Menos impostos” é o slogan favorito dos partidos de oposição que buscam tomar as rédeas, porque o nível crescente de empréstimos compulsórios é um veneno para muitos. No entanto, uma vez no poder, os políticos parecem incapazes de realizar muitas de suas promessas. Aonde está a causa mais profunda ?

Tomemos outro exemplo antes de olharmos para dentro de nós mesmos : há milhões de dólares devorados pelas indústrias de armas. O que acontece aos produtos ? São vendidos ou fornecidos a um número de diferentes países.

E então ? Bem, o que foi produzido precisa ser usado. Equipamento militar acumulado tem uma espécie de força latente. Ele precisa ser “consumido”.

Pessoal treinado quer testar suas habilidades. As unidades do exército não podem ser mantidas indefinidamente nas barracas, elas precisam trabalhar.

E não há dificuldade para os grandes poderes industriais encontrarem lugares onde possam provocar as situações e testar seu potencial de guerra.

Quando a corrida armamentista se descontrola, o que está acontecendo ? Nós podemos caracterizar o impulso essencial atrás de tudo isto com qualidade ?

O Vietnã é um exemplo. Aquela guerra culminou finalmente numa tentativa de destruição do inimigo e seu país com um tapete de bombas, foguetes, mísseis e assim por diante. Eu não sei os números exatos ( não significam muito para mim de qualquer modo com tantos zeros), mas bilhões de dólares foram lançados sobre a terra como um presente não solicitado.

Sem necessidade de retribuição. Uma força militar é como um dragão cuspindo seus “presentes” com boca pródiga.

Agora coloquem dois fenômenos lado a lado : o governo exigindo cada vez mais impostos, e a máquina de guerra jogando fora tanto, sem ter sido solicitada e de mão aberta.

Tendo reduzido a situação a uma completa caricatura do dar, nós podemos olhar para dentro procurando uma qualidade similar. Como é com nosso próprio dar ? Nós sabemos realmente o que significa dar ? Nós podemos repartir uma possessão ou uma parcela de nosso rendimento para o benefício de outros ? Nós realmente podemos dar livremente ( em nossa motivação) e desprendidamente ( quanto à destinação) ? Cada um deve falar por si mesmo, mas a minha impressão é que este lado das pessoas é muito pobremente desenvolvido.

Meu trabalho no Instituto para o Desenvolvimento Social inclui dar cursos junto com meus colegas para desenvolver a habilidade de cooperar. Há um exercício silencioso, no qual cada pessoa recebe várias peças de muitos quebra-cabeças. No fim dele, cada um deve ter completado um pentágono regular. No começo, é claro, ninguém tem as peças corretas em seu envelope, assim precisa trocá-las. Mas de acordo com as regras, não pode pedir nenhuma ( tudo é silencioso), nem pegar alguma para si, nem mesmo mostrar que precisa de certa peça. O exercício é exclusivamente dar. Cada um é totalmente dependente dos outros pelo que ele recebe, e para muitos este jogo é uma experiência chocante. É duro para uma pessoa suportar completa dependência dos outros para atingir seu próprio objetivo, o pentágono, e ( ainda mais difícil) espera-se dele que olhe em torno de si com interesse e veja o que os outros precisam e se ele pode talvez ajudar desistindo de alguma de suas “possessões” .

Uma pesquisa do exercício revela como há inúmeras razões para dar que não são livres nem desprendidas, para citar algumas :

 – dar, esperando algo em troca ;

– dar o que você mesmo não pode usar ;

– dar, para causar impressão generosa ;

– dar, para mostrar a outro que ele deveria ter dado ( silenciosamente          reprovando-o  como ambicioso) ;

– dar, porque você pensa que as peças circulam, todos têm a chance de conseguir o que precisam ;

– dar, porque de qualquer modo eu tenho poucas peças;

– dar, confiando no especialista ! Ele já conseguiu um pentágono, sabe como fazê-lo, assim ele ainda pode fazer algo com o que tem ;

– dar, porque geralmente é agradável dar ;

– dar, por sentimento de culpa. Eu tenho mais peças do que os outros,nós precisamos igualar ;

As resistências interiores a dar também vêm claramente à luz. Por exemplo :

 – incerteza se o outro realmente pode usar meu presente ; ele sabe o que fazer com ele ?

– dificuldade em desistir do que foi poupado ;

– medo de não receber nada em troca.

 Mais uma vez : não parece ser tão simples olhar em volta abertamente, sem egoísmo e perceber se eu posso ajudar através da doação. E, de qualquer modo, por que isso é tão importante ?

Em suma, porque uma vida espiritual verdadeiramente livre só pode ser concebida se o lado material se torna acessível através de um fluxo de dinheiro doado livremente.

Falando de presente nós não estamos pensando realmente no pequeno presente particular ou de doações filantrópicas, embora estas tenham seu lugar, mas de ações bem objetivas ( ou de série de ações) ; de dar com consciência da necessidade de desenvolvimentos específicos. Isto pode tornar possível para as pessoas promoverem algum talento científico ou artístico ; ou amparar um novo impulso educacional, melhoria agrícola, novos caminhos no tratamento médico e semelhantes.

Onde quer que novos impulsos espirituais estejam esperando para serem realizados, o dinheiro precisa ser dado, incondicionalmente ; precisa realmente ser oferecido livremente, para ajudá-los a se concretizarem. Nas palestras sobre  Trimembração do Organismo Social, Rudolf Steiner falou de 3 tipos de dinheiro : dinheiro de compra, dinheiro de empréstimo e dinheiro de doação.

Dinheiro de compra é usado para bens já manufaturados colocados à venda.

Uma troca direta de dinheiro e mercadorias.

Se nós podemos poupar algo, nós podemos emprestá-lo às pessoas com idéias que esperam converter em produtos. Elas pedem dinheiro para comprar máquinas, para alugar espaço e conseguir quaisquer equipamentos que precisem. O dinheiro emprestado com um contrato formal retorna mais tarde com juros. As idéias se materializaram.

Com dinheiro de doação nós nos elevamos, por assim dizer, a um nível superior. Nós não compramos quaisquer bens ou serviços, nós não permitimos idéias ou habilidades parcialmente desenvolvidas a se materializarem.

Nós tornamos possível a realização de idéias e capacidades ainda não existentes. Isto só pode acontecer na esfera da liberdade. Associar quaisquer intenções comerciais, ideológicas ou políticas com o dinheiro, influenciar o resultado com qualquer condição, polui o espaço de liberdade e empobrece o resultado espiritual.

Para um verdadeiro avanço em direção a formas espirituais de cura, educação, agricultura e assim por diante, um espírito inteiramente livre é necessário na vida cultural ; complementar a isto está um livre fluxo de doações.

Deste ponto de vista, é desanimador a maneira pela qual o governo com seu sugador sistema de impostos envenena a natureza da doação, tornando quase impossível doar generosamente, livremente e sem qualquer interesse próprio.

Para este livro, no entanto, a pergunta é : como é que este tipo de doação exterior tornou-se tão severamente corrompido ?

Nós mesmos criamos as condições permitindo que nossa própria capacidade de doação secasse ?

As 3 imagens que invocamos, da inflação e compra a crédito, seguros e investimentos, impostos e a indústria bélica, indicam três qualidades interiores que precisam ser cuidadas : o controle da compulsão a comprar, aprender a construir baseado na confiança e o crescimento do poder de dar.

É realmente o caso dos 3 lados da vontade humana : 1) aprender a manejar nossos desejos na esfera do querer ; 2) aprender a confiar nas intenções do próximo e reprimir a própria vontade para que a dele possa surgir : 3) aprender a fazer um sacrifício na doação para que uma vontade objetiva espiritual possa encarnar.

Como foi indicado, este caminho trimembrado de treinamento conduz à cura do uso do dinheiro. O desejo em questão pode curar o dinheiro de compra ; crédito concedido com confiança nas pessoas sana o dinheiro de empréstimo ; e a vontade de fazer um sacrifício cura o dinheiro de doação.

 

“A Sociedade como reflexo do próprio interior”

  Lex Bos – cap. V

Published in: on 10/09/2009 at 7:30 p09  Deixe um comentário  

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