O Significado dos Vínculos e Encontros

Cap IV

Se não reconhecemos o paraíso em que nos encontramos, aí adentram outras forças. Assim é se não temos uma relação adequada com o social, se não nos damos conta de que pertencemos a um grupo, que temos uma responsabilidade com o social, de realizar um trabalho, de querer o bem, de que o meu bem também seja adequado com o bem de todos, se não realizo atos que irão afetar o bem geral e a tranqüilidade geral.

Se não nos preocupamos com o social, uma série de forças negativas penetram dentro da alma, principalmente não cuidando e não nos responsabilizando pelos afetos e emoções que temos com as pessoas. No momento em que sentimos algo por uma pessoa e perdemos a noção de que isso é um desafio, a coisa enrosca.

Quando nós não nos damos conta de que é esse medo que é o desafio na relação, é essa dúvida que é o desafio. Se não percebemos isso, responsabilizamos o outro, brigamos com o outro em função daquilo que estamos sentindo e tudo se enrosca e entra uma série de forças muito negativas que fazem com que aquele encontro que foi marcado não leve a nada. Fica simplesmente dois seres que não conseguem se desgrudar, que ficam unidos por muito ódio ou por qualquer outra coisa e que na realidade não conseguem fazer uma relação construtiva.

A idéia hoje não é falar de todos os tipos de relações complicadas que podem surgir em função disto, mas sim se perguntar como podemos fazer para desenvolver as forças com as quais aproveitamos esses encontros, e fazermos uma relação diferente, mais espiritualizada aqui na terra. Rudolf Steiner fala que tem várias maneiras dos encontros tornarem-se muito destrutivos. A fofoca  não precisa ser no ouvido do outro, ela pode ser interior. Se fofocamos muito é sinal de que não estamos assumindo nosso processo, ou seja, é a dificuldade de estarmos assumindo nosso próprio processo. É algo que a psicologia hoje em dia se dá conta, ou seja, quando colocamos toda essa briga para fora é que não estamos sabendo assumir a briga interna. Todos os desencontros na terra provêm da dificuldade de aceitarmos a luta interior. Cada encontro, ao mesmo tempo em que promove as possibilidades de construção, por ser um desafio interno, é um processo de luta interior.

Para podermos nos relacionar com o outro temos que pelejar muito interiormente, e apesar da tormenta, conseguir construir uma relação pacífica e estável. Porque a tendência das emoções é desestabilizar tudo, vem para agitar (movimentar) e nós no meio das ondas temos que aprender a surfar. Se você quer observar o seu desenvolvimento espiritual ou o desenvolvimento do espírito do outro, não pergunte o que ele estudou, quantas faculdades fez, quantos livros ou filósofos leu, olha como ele se relaciona. É na relação afetiva que somos testados todos os dias para provar se afinal de contas estamos dispostos a nos doar, a nos responsabilizar, a nos comprometer, a sermos honestos, humildes, etc. Porque sabemos como é tentador dizer aquela mentirinha e vamos mentindo, enrolando, é uma tentação constante para toda nossa honra, nossa humildade. É importante descobrir os vínculos afetivos, compreender como estão, porque eles dão uma percepção imediata de como está o desenvolvimento espiritual de cada ser.

A espiritualidade é observada na relação afetiva que as pessoas constroem, e a briga que é jogada para fora, é uma dificuldade nossa de resolver uma confusão interna. Ou seja, devemos nos habituar a que o encontro com o outro provoca interiormente atritos e que, ou os resolvemos interiormente, ou nunca os resolveremos fora. Ou assumimos essa briga interior, esses desconfortos que ocorrem internamente ou não vamos poder fazer o encontro acontecer fora.

Outra série de maneiras das relações se tornarem destrutivas são as descritas por Freud. Todas as formas sadomasoquistas de relação, onde ela não é de igual para igual, existe uma relação de poder, de vampirismo. Ou seja, tem toda uma série de formas complicadíssimas de relacionamentos que podem surgir de encontros belíssimos, mas não é pelo fato da situação ter caído nisso que tenha que ser descartada, tem que ser é higienizada. De que maneira posso transformar isso que se tornou um enrosco, uma situação complicada, em algo construtivo e que possa unir dois espíritos?

A idéia da antroposofia não é ficar aprofundando nesse enrosco para tentar entender, mas se dar conta de que o mesmo ocorre na hora em que as duas individualidades não se dão conta de que ambas têm um desafio no meio. É impossível acontecer um vínculo se os dois lados não tomam a decisão; vínculo não se constrói de um lado só. O processo da construção de um vínculo depende da percepção bilateral do desafio que significam aquelas emoções que surgem quando duas pessoas se encontram na vida e têm alguma coisa para resolver. Se não se dão essas condições, realmente fica impossível construir um vínculo e o que vai acontecer é que forças negativas vão penetrar dentro desse processo e em lugar de se tornar algo libertador, construtivo, torna-se algo destrutivo e aprisionador que estamos acostumados a perceber todos os dias (esse tipo de desencontro).

Os encontros acontecem em qualquer idade e tudo que podemos fazer para transformarmos todos esses conteúdos emocionais que surgem do encontro cármico numa relação construtiva está relacionado com o senso de responsabilidade. Ou seja, nos darmos conta de que somos responsáveis pela possibilidade de fluxo e de troca com determinada pessoa. Tudo aquilo que aumenta a responsabilidade pode ajudar para que possamos levar a relação de uma forma mais construtiva. Uma coisa que ajuda a assumir a responsabilidade é aceitar que fomos nós que plantamos isso. Essa teoria da reencarnação ajuda no processo de nos tornarmos responsáveis na medida em que aceitamos que estamos colhendo algo que plantamos e que isso não é gratuito. Ou seja, a pessoa está evidenciando algo, um sentimento que era genuinamente meu e que antes de encarnar eu plantei lá. Temos sempre que nos perguntar se aquilo que o outro sente tem relação comigo. Fui eu que plantei? O que você sente nessa relação comigo? O que provoca minha maneira de falar, minha maneira de ser? É uma maneira de percebermos que o auto conhecimento não é só um mergulho, mas que é também perguntar o que tem nos pedacinhos dos outros, ir novamente devolvendo os pedacinhos e recolhendo os próprios.

Encontramos pessoas às vezes na infância, às vezes na velhice, os encontros têm um valor que não está relacionado com o tempo. Tem encontros fugazes (duram semanas) e que marcam a vida com muita profundidade. Tem pessoas que estão na nossa vida durante 10 anos que não marcam absolutamente nada, ou seja, depende do quanto nós trocamos com as pessoas, vai depender do quanto vamos ativar na vida.

Uma forma de encontrar este processo de responsabilidade é fazer um levantamento de todas as pessoas que encontramos na vida, todas . Passar a fazer esse processo ritualístico de levantar uma lista enorme das pessoas que encontramos (desde pais, babas, empregados, vendedor de frutas na esquina, jornaleiro, professora, o porteiro da escola, etc). Com esse processo vamos nos dando conta do quanto recebemos, como foi importante aquela professora, aquele amigo que jogava bola, como foi importante aquela pessoa que eu gostaria de apagar, esquecer. Percebemos então, como tudo isso é atuante, geralmente tendemos a fazer uma estória muito do EU e pouco das pessoas e quando fazemos um levantamento, sem ficar só na relação mãe, pai, irmãos, vamos percebendo um monte de pessoas que encontramos na vida e o quanto elas foram importantes. Um, te ensinou sobre humildade, outro te falou sobre a raiva, outro te mostrou a importância do respeito, ou a importância da generosidade na vida, etc. Afinal de contas o que são nossos pais nesta história toda, nesta relação complexa e necessária e que depois vai para todas as mesas de análise e consultórios ?

Segundo Steiner, os nossos pais nesta vida, irmãos e núcleos familiares, eram nossos melhores amigos na vida anterior. Os amigos que tínhamos no meio da vida, por volta dos 30, 35 anos (entre os 30 e 40). Essas pessoas que, por tanto gostarmos e termos uma relação forte, continuamos junto e vamos nascer numa próxima vida juntos. Diz que tem uma lei no mundo espiritual que diz que o que é invisível numa vida vai ser visível na próxima. Nós não vemos o amor e não vemos o amor existindo entre duas pessoas e esse processo de amor entre duas pessoas numa vida é o que vai fazer com que os rostos se pareçam. A semelhança física numa vida é o tanto que se amou na vida anterior. Essa semelhança do rosto, de postura, de movimento, é o tanto de amor que tinha na vida anterior. Mas como as relações afetivas são complicadas não resolvemos numa vida e temos que resolver na outra.

O senso de responsabilidade de resolvermos as relações familiares é muito mais amplo do que a visão colocada pela psicanálise, de que se não resolvemos a relação afetiva do núcleo familiar, vamos ter problemas para frente.Você já amou, já teve uma relação profunda com essas pessoas, optou se encontrar com elas e mesmo assim conseguiu fazer um belo de um enrosco. Se você não conseguiu terminar bem nem com o que já começou, vai ser difícil você começar outra coisa. Devemos ter um senso de responsabilidade com nossos pais e nos darmos conta de que na realidade fomos nós que plantamos essa necessidade, nascer até parecido pelo tanto que nos amamos na vida anterior. Esse tipo de relação também só pode ser resolvido se houver uma decisão dos dois lados. Se nos relacionamos com uma pessoa e queremos solucionar algo e a outra pessoa não está querendo, podendo ,ou não está nem percebendo, vamos ficar com um buraco (um rombo).

                                                                                  Gerardo A.Blanco

Published in: on 29/05/2009 at 7:30 p05  Deixe um comentário  

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