Arquétipo da Síntese : a reconciliação entre o masculino e o feminino

 

A união com alguém é da ordem da graça.

Na teologia judaico-cristã, um momento de confusão entre o eu e o Self é o que chamamos de Paraíso. Na queda, perdemos a inocência infantil para viver no exílio, mas o objetivo é a união, a redenção, o reencontro com a unidade na diferença.

O caminho da síntese supõe a diferença e a diferenciação. Precisamos fazer dos momentos de conflito, uma ocasião de consciência que vai nos conduzir a uma unidade onde cada um pode ser capaz de amar o outro em todos os níveis e respeitar as diferenças.

O homem é uma síntese dos 4 elementos da criação : terra, fogo, ar e água. Nós encontramos esse tema nos pré-socráticos que insistem na integração. Na idade média vemos na entrada das catedrais as imagens da águia, do leão, do touro e do homem. E é preciso perceber que todos eles tem asas, cada um está nesse caminho de elevação, a síntese e a integração dos 4 elementos no centro, é o Cristo. Esses quatro viventes que simbolizam as 4 funções do homem não vivem sempre em harmonia. Isso é a causa da guerra e da fome. No apocalipse é interessante ver que, como esses 4 viventes não estão integrados no coração do cordeiro, é o dragão que tem o poder.

Esse trabalho de integração vai inspirar Carl Jung a falar das 4 funções : sentimento, razão, intuição, sensação, e a integração dos 4, o Self. Essa visão se inspirou nos portais das igrejas. Cada uma dessas funções pode ser desenvolvida, cortar ou sobrepor as demais. Funções dominantes e funções esquecidas, sendo que estas últimas estão na origem da sombra em nós. Temos que integrar essas 4 funções no encontro com o outro, no encontro de dois Selfs. Isso pode se tornar o encontro de nossas sombras.

Em nós há sempre luz e sombra, trata-se de reconhecer isso em sua inteireza. Para o oriental, não há luz sem sombra, dia sem noite.

Outro símbolo da síntese está na tradição chinesa. A palavra Tao significa caminho, via da cabeça aos pés. Para Tereza D’Ávila, a cabeça deveria estar no céu e as raízes, profundas na Terra. No evangelho de Tomé, é preciso que o alto e o baixo se toquem. É a integração que vai nos permitir tocar a Terra e estar aberto ao Céu. No símbolo do Tao, o negro e o branco não estão misturados , no interior do branco há o preto e vice versa. Não misturar e não separar para surgir o terceiro que é o círculo que contém os dois. Há o terceiro incluso, o que faz a ligação entre os dois.  Para ser um é preciso ser três. É importante o espaço entre os dois, o espaço que une e se distingue, o terceiro que há entre o amante e o amado. Não há aliança sem os três.

Os antigos chineses falam de harmonia e da palavra “cor”. A palavra cor/cordis/coração, simboliza o movimento do centro em direção ao centro do outro. O símbolo que representa o homem é essa harmonização entre o céu e a terra, o terceiro que faz a ligação.

O símbolo da escola de Grof Durkheim também tem a ver com esse significado, um enraizamento e a abertura.

Assim, temos que restabelecer sem cessar, a relação e a harmonização entre o homem e a mulher em vários níveis. Somos constituídos por 12 corpos, 12 níveis de consciência, e cada um desses corpos pode se tornar um corpo de sofrimento. Então, como dois corpos diferentes se encontram? Quais as dimensões que são reconhecidas, e quais permanecem desconhecidas para um e para outro ?

O corpo da memória, por exemplo, tem a ver com as memórias ancestrais que nos habitam, é trans geracional, coletivo. Por vezes esse corpo está doente porque não conhecemos nossos ancestrais, às vezes não sabemos quem é nosso pai, para alguns isso é um grande sofrimento. Qual a linhagem a qual pertencemos? Precisamos nos tornar livres dessa descendência. Em nosso corpo está toda a nossa família e todos os nossos ancestrais, temos nossa herança em nosso sangue. A cura só pode vir através da aceitação. Tudo que não é aceito não é transformado. Tudo que não é assumido, não é salvo. Temos que assumir nossa herança, nosso código genético, e aceitar os ancestrais do outro. A dificuldade do encontro às vezes é entre as nossas duas famílias, entre duas educações que recebemos. O inconsciente é habitado pelos ancestrais, então é importante compartilhar isso com o outro. Os fantasmas ocupam a relação e nos impedem de nos conhecer verdadeiramente.

O corpo de apetite se relaciona à fome, sede. Nosso corpo se torna aquilo que comemos, cada um pode observar em si mesmo os seus gostos e desgostos. Existe a angustia do vazio que preenchemos com alguns alimentos, por ex. na anorexia, na obesidade, etc. Temos que conhecer o nosso próprio corpo de apetite e o do outro. Apetite tem a ver com o gosto de viver. Às vezes num casal o apetite funciona muito bem, quando estão à mesa, aí está a verdadeira felicidade; a vida pode ser difícil quando um come carne e o outro é vegetariano. Em todos os níveis pode ser que damos ao outro o que temos de melhor, mas o outro não se alimenta disso. Como respeitar o desejo e apetite do outro? Essa é, às vezes, a fonte de muitos dramas. Como harmonizar os nossos apetites? Respeitar a dieta do outro e poder viver junto. Por vezes, não compartilhar prazer, pode afastar.

O corpo de pulsões, no nível da libido, é muito intenso. É interessante saber quais são nossos animais interiores. Qual é a minha vida pulsional, não somente no nível da sexualidade, mas também da violência. Às vezes em um casal, a violência é muito destruidora; é sempre uma energia da criatividade que não é expressa através de obras criadoras. Por vezes, em uma relação de casal, é esta energia que se enfrenta, portanto é importante ter em conjunto uma obra compartilhada, quer seja a criação de uma criança, de uma casa.

O corpo da emoção: alegria, tristeza, raiva. Somos mais ou menos emotivos, por vezes nos deixamos invadir por nossas emoções, nos tornamos escravos dela, nos tornamos objetos e não mais sujeitos dessa vida emocional. Temos tendência a impor nossas emoções, mas trata-se de estar na escuta e no respeito. Porém, compartilhar emoções juntos através da lágrima ou do riso, pode harmonizar esse corpo. Às vezes não expressamos emoções e as reprimimos,  não nos expressamos direito. Introduzir a consciência nas nossas emoções não as destrói, as liberta.

O corpo das palavras. Alguns de nós falamos sem cessar, e quando não somos nós, é o rádio ou a TV, um corpo barulhento. Para outros casais, a falta de palavras é uma dificuldade. Temos que colocar palavras na vida interior, porque a palavra é sagrada. Enquanto o casal consegue conversar, a vida é possível; quando não se pode mais falar, quando não se tem mais palavras para dizer ao outro o que tem de ser dito, mesmo que difícil, a vida do casal empobrece. É muito difícil dizer a verdade ao outro, é preciso amar muito. Ser capaz de dizer não te amo mais. Mas talvez existam outras formas de amor a descobrir no outro, um outro nível de amor mais profundo.Se somos capazes de conversar, de dizer a verdade ao outro e não temer a verdade que há em nós e no outro, acontece uma harmonização. Não há como viver na mentira, isso é uma forma de esquizofrenia.

O corpo de pensamentos. Normalmente nossa fala expressa nossos pensamentos. A mentira não expressa os pensamentos. Às vezes há uma grande distância entre o que pensamos e o que somos. O “sou quem sou “ se expressa através do pensamento, este se expressa através da palavra e esta se expressa através da ação. Mas às vezes não estamos nesse nível de transparência. Quando dois corpos de pensamento se encontram, podemos sentir os pensamentos um do outro. Às vezes isso não acontece, e os não ditos podem destruir o casal. Pensamento é energia e o silencio da não comunicação, é um silêncio de morte. Quando não se pensa mais na mesma direção que o outro, surge a questão: “o que você está pensando? sinto que você pensa em outra pessoa”. Às vezes dormimos no mesmo leito e não dormimos no mesmo sonho. São corpos de sofrimento que se enfrentam e que não tiveram tempo de esclarecer seus pensamentos. A comunhão de pensamentos em um casal traz muita harmonia, o mesmo cumprimento de ondas.

O corpo de desejo se trata de uma orientação que quero dar à minha existência, aquilo que realmente quero e faço todo o necessário para que essa vontade se realize. Alguns casais se separam neste nível, porque as vidas tomam direções diferentes. Um tem desejo de sucesso social e financeiro, mais o outro quer um sucesso mais afetivo e interior, ser bom e feliz. Às vezes não há mais um projeto ou futuro comum. Se sou fiel ao meu desejo profundo, ele pode ser incompatível com o desejo do outro. Então é necessário ter o amor e a coragem para se separar porque não dá para dois estranhos viverem juntos.

O corpo do sentimento. Será que meu corpo tem um coração? O meu caminho tem um coração? O que pratico tem um coração? Na relação com o outro, o coração está mesmo presente? Será que temos o desejo do bem do outro, que não necessariamente é a mesma felicidade que a minha? É no contato com o outro que tem um coração, que tocamos o divino que habita em nós.

O corpo dos sonhos são imagens arquetípicas, sons e imagens que nos habitam. Será que é só a imagem do outro que eu amo, ou o é outro em si mesmo?

O corpo de louvor. Há graça e poder no louvor. O fato de fazer isso junto com o outro pode ser uma fonte de união profunda.

O corpo de luz. Podemos ver a luz que está entre nós e a luz que está no interior de nós. Duas pessoas às vezes podem se encontrar nessa luz, são os corpos de luz que se envolvem.

O corpo do silêncio. Às vezes somos sensíveis a essa profunda presença do outro. O silêncio além de todas as palavras.

Assim como há 12 discípulos de Cristo, esses 12 corpos são discípulos do “Eu Sou”. O encontro com o “Eu Sou” do outro se dá no presente. O corpo do outro é, por vezes, um país no qual nunca chegamos. Quantos corpos se encontram na relação de um casal? Acredito que ninguém consegue se encontrar em todos os níveis. Mas podemos desenvolver um encontro mais rico e profundo nos corpos que não se encontram.

Há um texto da tradição grega, de Platão, que se refere à busca do outro como sendo a metade faltante; esse texto influenciou muitos pensadores e a nós mesmos. Será que estamos buscando a outra metade ou verdadeiramente um outro ? No banquete, na fala de Aristófanes, ele se refere a Eros como um tipo de amor que precisa preencher a falta. Nesse mito, o outro nunca é amado por si mesmo. Faço uso do outro para alcançar a minha plenitude. Amo no outro o meu próprio reflexo que se parece comigo – isso é narcisismo.

Há um texto no Gênese onde a diferença entre homem e mulher é a própria imagem de Deus. “No início nasceu a luz, o não manifesto se manifesta. Nada existe por si, tudo é ligado e interligado. O que conhecemos da vida são as manifestações, mas a vida em si mesma não conhecemos, ela se mantém escondida. O semblante do outro mostra o invisível. Os Eloim, energias criadoras, fazem existir todas as coisas, é como um sopro sobre o caos. O dia e a noite, a terra e a água, como um processo de separação, de diferenciação. Macho e fêmea criados por Eloim. A imagem de Deus como a relação entre ambos, não é o homem nem a mulher, é a relação. No evangelho, aquele que ama permanece em Deus e Deus permanece nele. Nessa visão, a diferenciação sexual é percebida como positiva, é através dela que a vida se comunica. Não é bom que o ser humano permaneça só. Ele só pode ser feliz se tiver uma relação com o outro, aí ele se torna inteiro, dois seres inteiros, duas autonomias. Para Reiner M.Rilke, o amor que nós buscamos é o encontro de dois sujeitos que se inclinam um ao outro para que cada um chegue à sua plenitude. Não existe a necessidade do outro, é um amor mais maduro. A tradição hebraica é diferente da tradição grega.

Há um texto que pertence ao Novo Testamento que diz que, quando estamos no arquétipo do Cristo, não há mais macho nem fêmea. Como se vive o encontro a partir desse pressuposto? Na carta aos Gálatos diz que, quando entramos no arquétipo divino, não há nem judeu nem grego, não há mais escravo nem homem livre, não há macho nem fêmea. Nos tornamos um na consciência do Cristo presente. Há que ultrapassar a diferenciação sexual, somos pessoas inteiras, cada um é um ser humano pleno. São relações de pessoas, somos iguais em dignidade. Em cada homem e em cada mulher a essência divina, a presença da divindade em cada um. Há que reconhecer a presença do Ser no outro porque, antes de tudo, reconheci em mim mesmo. No casamento na antiga tradição cristã, cada um coroava o outro. Há dois senhores, um príncipe e uma princesa. Nesse texto somos chamados a nos respeitar mutuamente.

Três grandes tradições, a grega, a hebraica, e a cristã, que talvez sejam 3 etapas da nossa existência.

No Evangelho de Felipe a presença de Deus se revela no encontro íntimo do homem e da mulher, no leito nupcial.

Em todos os corpos podem aparecer parasitas, mas o corpo do Bem Aventurado habita em nós e pode neutralizar essa contaminação. É a beatitude do Eu Sou que pode ser vivida em todos os níveis do nosso ser e compartilhada com o outro.

Os antigos chamavam o Bem Aventurado de arquétipo da síntese, o que faz a ligação entre o humano e o divino, a matéria e o espírito. Na tradição cristã o Bem Aventurado é o Cristo, e nas tradições antigas ele está representado entre João Batista e Maria Madalena. João Batista é o asceta, o homem do deserto, da justiça,  e Maria Madalena é mais a dimensão da beleza, da generosidade. A pessoa de Jesus vai integrar essas qualidades do masculino e do feminino. Integração da justiça e da misericórdia. Isso é representado nos ícones, é a maneira de representar o semblante de Cristo.

O encontro é o encontro de dois diferentes e no ser inteiro há o masculino e o feminino. Quando estamos em estado de meditação, estamos além da forma. Aí é o Eu Sou. O bem e o mal não são separados, assim como não são o dia e a noite. A realidade quântica é ao mesmo tempo onda e partícula. O arquétipo da síntese contém os contrários.

Cristo é a síntese entre Deus e o ser humano. A noção de Deus é uma noção humana. Não há Deus sem um ser humano que testemunhe essa realidade. E um homem sem Deus não tem profundidade. Não há homem sem Deus e Deus sem homem. Cada um de nós é o visível no invisível. O esforço e a graça andam juntos. O arquétipo da síntese está em nós, assim com a capacidade de integração: Pai/Filho/Espírito Santo.

 

 

Jean Yves Leloup

Workshop de Psicologia Transpessoal – Alubrat

25 e 26 de março de 2017

 

A vontade de curar e o Impulso Crístico

 

No Congresso de Natal de 1924 Rudolf Steiner proferiu a seguinte frase :  “ Que as pessoas se tornem aquilo que fortifica o mundo”. Todos nós temos uma tarefa sanante que cura algo no mundo. No evangelho, os discípulos foram enviados para sanar o mundo. Steiner disse que o impulso crístico da atualidade se mostra na atividade de cura.

O que a proposta de sanar tem a ver com o Cristo ? Steiner falou muitas vezes sobre a força de vontade e a coragem de curar. Quando ele falava sobre Ita Wegman, ele dizia que ela tinha essa coragem. Gostaria então de abordar nesta palestra de hoje, as qualidades de alma que Ita Wegman possuía e que todo ser humano da atualidade também possui.

Em relação ao pensar, o curar tem algo a ver com o reconhecer. Se quisermos ajudar alguém, temos de entender o que lhe falta. Nós vemos o sofrimento de uma pessoa, mas só ver não significa a solução para resolver esse problema. É uma tarefa de compreensão entender a partir do que e de onde vem o sofrimento do outro, assim como a ajuda para tirar esse sofrimento. Sabemos que hoje não são apenas seres humanos que sofrem, mas sim toda a Terra.

A consciência desse sofrimento existe em muitas pessoas, mas muitos não têm o diagnóstico nem a terapia corretos. Se realmente queremos ajudar para a solução do sofrimento, temos que trabalhar intensamente no âmbito da compreensão. O termo diagnose (do grego) significa que se olhe através da doença para a terapia.

Quando perguntamos a alguém “o que lhe falta ?”, pode ser que seja o sentido da vida, um amigo,ou o processo de ferro no sangue; quando se pergunta isso, não é uma questão de perguntar o que o faz sofrer, mas sim, do que ele tem necessidade. O que temos que aprender não é somente ver a necessidade, mas o que a origina e como podemos prover essa necessidade.

É uma questão de coragem olhar o que está além do aparente para chegar ao cerne do problema. É muito simples dar sonífero a quem não consegue dormir. Pesquisar o motivo da insônia já exige mais trabalho. E trabalhar com o paciente no problema que causa a insônia, exige outro empenho.   É uma questão de coragem, de força de vontade. Porque adentramos uma situação difícil, não se tem a resposta imediatamente, pois o sintoma não é o problema em si.

Tenho que fazer uso do meu Eu que quer reconhecer algo do problema.    Nos âmbitos social e político, a explicação para tudo é muito rápida, só se corrigem os sintomas. Mas se queremos passar além disto, faz-se necessário adquirir uma força de vontade que quer abarcar e saber. Isso é um princípio Crístico primordial: fazer juízo próprio e uso da própria razão. Para Emanuel Kant “o conhecimento é o início para o ser humano poder sair da sua dependência auto-inflingida”. Se nós queremos curar, temos que dar conta da tarefa de esclarecermos as coisas.

Antroposofia é uma ciência do conhecimento. Ela não é primariamente algo que concerne ao sentimento, mas sim ao pensar. Não é apenas pensar, mas ela começa com o pensar e com a atividade do Eu dentro do pensar. Eu desconfio daquilo que vem a mim como julgamento alheio, eu próprio quero formar meu julgamento.

Ita Wegman antes de ser médica era fisioterapeuta e trabalhava com massagem, mas cada vez mais se sentia frustrada porque tinha que executar o que os médicos indicavam para os pacientes, não lhe era permitido formar o próprio diagnóstico nem a terapia. Ela queria assumir a responsabilidade pelo que fazia, mas só podemos assumir responsabilidade pelo que reconhecemos e entendemos por nós mesmos.

A Medicina Antroposófica começou como um novo caminho cognitivo. A Pedagogia Antroposófica também começou com esse mesmo caminho. Na pedagogia temos a tarefa de saber, por exemplo, o que leva a criança a ser muito agitada. A Agricultura Antroposófica também tem esse impulso, onde tentamos entender o que leva a planta a criar uma doença, e não só utilizarmos produtos químicos.

Assim vemos que em todos os âmbitos, se queremos atuar de forma sanante, precisamos de um profundo julgamento, e a Antroposofia é um impulso de coragem para formar seus próprios julgamentos. A atuação crística do século XX se apresenta em pessoas individuais que adquiriram a capacidade de criar uma atividade própria no pensar em vários âmbitos da cultura. Pessoas que usaram um pensar diferente da corrente comum para procurar a verdade. É uma questão de coragem ser contrário ao que a massa pensa ou comunga. Quantas vezes assumimos os julgamentos alheios sem passar por um pensar próprio? A vontade de curar tem a ver com coragem.

Mas situações humanas não apelam apenas ao pensar, mas também ao nosso sentir. Segundo R.Steiner “ se nós sentirmos o ar que nos circunda, ele tem oculto em si a coragem”. Todos nós sabemos que pessoas que tem medo, também têm problemas respiratórios. Se prestarmos atenção profundamente, perceberemos que é nesse âmbito que abarcamos o mundo para dentro de nós e nos expandimos no mundo. No âmbito da organização rítmica da respiração, estamos abertos. Todos nós inspiramos e expiramos o mesmo ar.

Percebemos que neste âmbito do sentir comungamos com o entorno. É uma questão de coragem se permitimos essa aproximação do outro, ou se nos afastamos. A inspiração pressupõe uma confiança no mundo, um gesto de simpatia, e a expiração é algo do qual me distancio. Quando temos uma situação difícil tendemos a não querer inspirar, pois trazemos para dentro de nós o problema.

Ita Wegman tinha esse ímpeto de ir até a pessoa doente. Ela queria que a situação do paciente se aproximasse para bem perto de si. Há que se ter coragem para inspirar o sofrimento e a necessidade do outro. Sabemos que Francisco de Assis se dirigia aos leprosos e não se contaminava, ele adentrava essa miséria.

R.Steiner dizia : “ não amem somente os doentes, mas aprendam a amar as doenças”. Geralmente temos uma relação muito negativa para com as doenças, mas também para com os problemas sociais, as guerras, para tudo o que é negativo no nosso mundo. O convite para “amar” uma psicose ou uma leucemia soa tão absurdo como se tivéssemos que amar as drogas ou a guerra, pois é obvio que são características que tem a ver com o mal, e o queremos manter bem distante. Podemos perceber que quando nos distanciamos do mal, ele não desaparece, mas procura outro endereço.

O mundo inteiro está hoje repleto de pessoas que estão fugindo, são 60 milhões de refugiados. Os países fecham suas portas, mas o problema não se resolve. É óbvio que os refugiados não são o mal, mas do que eles estão fugindo é muita maldade e teríamos que nos haver com isso.

O impulso crístico tem a ver que se permita que aquilo que é escuro e mal se aproxime de mim na esfera do sentir. Cristo acolheu Judas em seu circulo de discípulos. Exige uma certa coragem admitir o mal nesta esfera e inspirá-lo.

Ita Wegman tinha uma força cognitiva médica inspiradora. Isso inclui a inspiração. Ela era uma médica que procurava o encontro com o paciente, com a doença. Isso não quer dizer se tornar doente também, mas sim, deixar a doença se aproximar tanto afim de que o impulso da terapia desperte e possa ser aplicado. Ela, em silêncio, deixava-se permear pelo paciente, e aí surgia a resposta. Muitos impulsos terapêuticos novos surgiram da convivência com o doente e a doença, e não com a distância.  Na aproximação pode surgir uma intuição da terapia. Essa força do amor que se une ao mal possibilita uma transformação. Se quisermos realizar esse impulso de cura no âmbito do sentir, temos que permitir que a maldade do mundo chegue a nós.

Como se dá essa coragem no âmbito do querer? Esse âmbito é a vida e a morte. No pensar, luz e trevas, no sentir, calor e frio, e no querer sempre se dá a luta entre vida e morte. Sabemos na medicina que a morte está sempre presente nas doenças graves. Mas também nas nossas atividades sociais, sempre há a possibilidade de destruição, do fim, e com isso acoplado vem essa tonalidade da alma que tem a ver com a falta de esperança.

O que nos é colocado neste âmbito como tarefa é que conquistemos a confiança. Na Grécia havia uma indicação de que os médicos não deviam tratar os pacientes desenganados. Provavelmente isso lesaria a reputação do médico. O grego tinha uma relação problemática com a morte – ela era o fim da vida, um nada. Para R.Steiner os médicos deviam se digladiar com a morte, se confrontar com a morte. A tarefa do médico é ajudar para a vida, eles devem fortalecer as forças vitais do paciente, e não formar prognósticos à respeito da morte, pois senão o paciente morre. O terapeuta não deve abrir mão da vida, deve manter a esperança.

Hoje em dia na Terra podemos prognosticar a morte em vários âmbitos: social, ecológico, econômico. Muitos jovens que se retraem para a vida particular já abriram mão de atuar no social ou na política, como faziam os jovens de 20 anos atrás. Muitos deles não têm mais esperança de que possa vir a superação de uma situação que atualmente se apresenta no mundo.

Ita Wegman tinha essa força incrível na superação do indivíduo, tinha uma fé que movia montanhas. Ela tinha essa fé não só em respeito às doenças, mas em situações difíceis da vida dos pacientes, força de vontade para procurar uma solução junto com o paciente. R.Steiner dizia que os médicos teriam que desenvolver força de vontade para o carma, para o destino. Assim que, se como médico me empenho para transformar uma situação do paciente, me ligo ao seu destino e a situação se torna um pouco minha também. Não é suficiente dar um bom conselho, o paciente tem que sentir que o médico está de forma existencial lutando e buscando uma solução.

O impulso crístico é, nesse sentido, a disposição de entrar com responsabilidade numa tal situação ; quando nos unimos a ela não somos mais só espectadores, mas nos tornamos parte dela. Na atualidade, esse impulso no âmbito social tem a ver com que atuemos com o nosso querer de tal modo que nos tornemos parte dele e assumamos responsabilidade por ele. Muitas vezes não queremos nos comprometer, entrar numa situação difícil. Mas seria sim nossa tarefa nos envolvermos com o que sabemos ser um descaminho. Faz parte sanar o que é difícil.

Ita Wegman possuía a capacidade de sacudir os pacientes para lembrá-los dos propósitos de suas vidas. Trata-se da questão onde, com o meu Eu, entro no querer. Temos que olhar para esses 3 âmbitos, pensar/sentir/querer, e o Eu nessas forças. Sua clinica era um espaço onde o impulso crístico vivia na comunidade como um todo. Pessoas que desenvolvem essa vontade crística necessitam uma comunidade ao redor que também queira fazer isso dessa maneira. Muita alegria, muita leveza e calor viviam na clinica em Arlesheim, na Suíça. Um ambiente de cura precisa dessa leveza, de humor, de cores e alegria para não se tornar algo estático, estarrecido. Apesar de todas as dificuldades que encontramos no mundo atual, encontramos também esses impulsos.

O Espírito de Cristo sopra onde ele quer.

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Palestra proferida por Peter Selg

Sociedade Antroposófica do Brasil

22 /03/ 2017

Published in: on 04/04/2017 at 7:30 p04  Deixe um comentário  

Cartografria da Consciência

 

O Tantra é uma filosofia da libertação para a liberação da kundalini, a vida em abundância como falava Cristo.O livro do corpo é o primeiro que temos que abrir na vida, é preciso aprender essa linguagem.O segundo é o livro da natureza, precisamos conhecer as leis que a regem.O terceiro livro que abrimos é o livro do “instante”, o que está acontecendo agora na vida.

Estamos ancorados no pacote da memória e existem 3 máximas que deveriam ser observadas : 1) Nunca reclame daquilo que você permite ;   2) Você se torna melhor naquilo que treina mais ; 3) Ligue os pontos .Em 2008 conheci o 8º chakra com um mestre na Índia, o nome deste centro de energia é “chama” cujo significado é calma. Este encontro me despertou para a pergunta matriz, que é aquela que pode nos mover na direção do plano do Universo : “ O que quer acontecer agora ? ”. Temos que entender sobre as frequências de onda e como funcionamos.

A Cartografia da Consciência tem 4 níveis pessoais, que tem a ver com os paradigmas e como pensamos o mundo, e tem 5 níveis transpessoais, que são os patamares de consciência que alcançamos. Nós podemos alterar alguns aspectos. Como você está neste momento ? Quais são os seus desafios e propósitos no campo da realidade ? Qual sua relação com prosperidade, prazer e poder ?

O mapa indiano, o eneagrama, as leis herméticas podem ser utilizados para conhecer aspectos do grande campo da transpessoalidade. Quando trabalhamos todos esses aspectos podemos observar como a vida pode se modificar.

A fonte de todas as nossas doenças é o estresse, que é gerado pelo medo. Nelson Mandela falou que o nosso maior medo é abraçar a nossa grandeza.

Já abordei o tema sobre como somos regidos pelo campo da escassez (Visões de Mundo) e como não fomos treinados para a abundância. Somos prósperos quando temos raízes e isso tem conexão com o primeiro chakra. O que precisamos aprender nessa dicotomia ? Temos a ideia da falta como um fato básico. Não há condições de a vida acontecer sem tempo, mas estamos com um modelo mental tão escasso que não percebemos que o tempo é abundante. O que você quer que esteja no seu tempo ?

A vida não exige de nós nenhum comportamento específico, não é uma questão de mérito. A vida nunca desiste de nós, ela acredita sempre no potencial de cada um encontrar-se nela. O campo é abundante para estar sempre provido, mas como temos o paradigma da escassez, estamos sempre focando no que nem é vida.

Pensamos diferente dos orientais. A qualidade de vida – bem estar, poder, sensação de sentido – é do campo do Carma. Para os orientais existe a lei de causa e efeito, mas os ocidentais têm o pensamento mágico de que não vivem num campo de conseqüências. Para o ocidental a responsabilidade da vida é externa – da sociedade, do outro, do governo.

Sempre fazemos um recorte da realidade de acordo como a vemos. A realidade é o que acontece, e como lido com isso, é o meu papel na relação com a realidade. Tudo que acontece é por si mesmo, não é algo que nós temos que decidir.

A primeira lei da natureza é que tudo é impermanente. Estamos muito focados nos aspectos materiais da realidade, mas, de fato, os aspectos imateriais é que fazem a diferença.

Do ponto de vista vibracional, felicidade é bem fácil de ser alcançada.O estado de alegria é um estado natural, mas fomos colocados numa fôrma na sociedade e perdemos isso. Os mestres acham graça em tudo. A vida sempre nos convida à evolução e quando não temos problemas, evoluímos muito pouco. Precisamos abraçar campos de desafio.Estudar, viajar para lugares diferentes, entrar em contato com coisas e pessoas de outras culturas, são desafios.

Viemos para a Terra para aprender a sermos terráqueos, e não conseguimos aterrar! Quanto mais perto da Terra, mais pragmáticos somos, e quanto mais pragmáticos, mais aptos nos tornamos para encontrar a solução. Cada um de nós traz a fórmula especifica da capacidade de consciência, a resposta está dentro dela.

O foco do primeiro chakra é resultado. Enquanto a pessoa não se dá conta que não sabe, a situação não flui. Para este primeiro nível de consciência é preciso que tenhamos clareza para saber o diagnóstico : da raiz da palavra em grego, conhecimento (gnose) do sagrado (dia). Vida não é esforço, é estratégia e fluxo. O esforço é a base da escassez.A prosperidade é algo que exige de nós uma certa clareza. Espiritual e material não são coisas separadas, tudo é freqüência de onda, tudo é espiritual.

O chakra umbilical, o segundo nível da consciência, traz a dicotomia entre o dever e o prazer. Somos sistematicamente treinados para o campo do dever e isso traz um desequilíbrio para este chakra. Culturalmente não tivemos treino para o prazer.         “Como você se diverte ?” é a pergunta para esse nível. Assim, a alegria é um campo difícil de ser alcançado. O prazer de estar, de vestir, do paladar, da audição, da visão. Devemos nos abrir para a arte e a beleza. O prazer depende de nós e precisamos nos alinhar com aquilo que aumenta nosso bem estar, que nos deixa mais felizes. Quantas vezes nos culpamos por estarmos bem ? A raiz da palavra proteção é “colocar-se no melhor lugar”. A natureza nunca promove desperdício. Ninguém transforma ninguém e ninguém se transforma sozinho. A transformação se dá no encontro. Você tem o poder de desenhar a sua vida.

O terceiro chakra, plexo solar, tem muito a ver com a forma como digiro as coisas. A palavra chave é poder e a dicotomia neste nível é entre a intuição e o instinto. O instinto não é o melhor regulador da consciência ;  medo, carência e raiva estão nesse campo. Um corpo dominado pelo medo e pelo controle sente muita dor. O medo é necessário para a vida mas não pode gerenciar a consciência. Os instintos não podem ser gerenciadores emocionais, eles estão ligados ao corpo físico.

Consciência e apego estão associados. A raiva é fundamental para superar obstáculos físicos, mas quando se torna campo consciencial vira reatividade e sequestra a nossa vontade. A pergunta neste nível é: “ Quais são as minhas atitudes ? ”. Na intuição o controle se transforma em confiança – fé em si, na vida, senso de entrega. A roda dos ventos da Cartografia da Consciência são quatro (4) :

  • Você é livre
  • Abundância para fluir
  • Criatividade é o oposto de reatividade
  • O amor é a grande energia geradora do Universo

Precisamos vibrar mais elementos amorosos em nós, porque a criatividade é gerada aí. É importante perceber a vibração amorosa no campo da consciência. Não somos treinados para amar nem para receber amor. Temos que sair do medo, da carência e da raiva e caminhar na direção da fé, da abundância e do amor. Migrar do instintivo para o intuitivo é a direção da liberdade.

Todas as coisas que sabemos foram aprendidas, e todas as coisas que não sabemos podem ser aprendidas. Se eu quero o novo tenho que transpor o campo do conhecido para o desconhecido. Se você tem um propósito ou um sonho, é porque você já tem a capacidade de realizá-lo, isso já é do campo da consciência.

No quarto chakra temos duas vibrações : amorosidade e cura. Esse é o último nível pessoal. Ninguém e cura e ninguém te ensina, os indivíduos ao redor são facilitadores, é você quem se cura e quem aprende. O campo amoroso é criativo. Precisamos adotar tecnologias para cuidar de nós e nos ensinar o caminho da cura.

É possível ser longevo e ter qualidade de vida. A pergunta nesse nível é :“ Como eu sinto a vida ?” . Quando me dou conta disso começo a utilizar os recursos ao meu redor. O caminho de cada um é único. Este nível tem a ver com pulmão e coração, alegrias e tristezas. Esse é o primeiro nível sem dicotomia, pois nos aproximamos do nível transpessoal.

Segundo Joseph Campbell, na jornada do herói os inimigos internos são sempre mais fortes, portanto precisamos vencer o inimigo interno, amar esse inimigo. Quando foi que você começou a deixar de apreciar a pessoa que você é? Quando foi que perdemos a emanação essencial que é amar a nós mesmos e a buscar ser uma pessoa que não somos? Quando nos afastamos da nossa beleza essencial? Somos uma coisa magnífica, precisamos reconhecer o ser raro que somos e não temos que ser igual a ninguém. Somos uma improbabilidade matemática, somos um milagre. O resgate essencial é amar a si como se é.

 

Dulce Magalhães (in memorian)

Aula proferia em 03/02/2017 no Curso de  Pós Graduação em Psicologia Transpessoal  Alubrat

Obs : os acima mencionados 5 níveis transpessoais da Cartografia da Consciência não puderam ser expostos na aula do dia seguinte por motivo de falecimento

Published in: on 01/03/2017 at 7:30 p03  Deixe um comentário  

A Transformação do Mundo e o Auto Conhecimento em face do Mal

 

Esse é o tema mais atual e importante do século 21.

Qual a origem do Mal ?

Em literatura filosófica ou teológica, sempre se encontra o conhecimento do Mal, e desde que a humanidade começou a pensar, existe a necessidade de explicar o surgimento do Mal, mas no entanto não consta uma explicação satisfatória .

Durante muito tempo na história da humanidade, não havia a necessidade de explicar porque existia o Mal, ele simplesmente estava lá.

Na Bíblia, temos descrições do Mal, mas nenhuma explicação de onde ele veio. No primeiro capítulo do Gênesis começa a seguinte frase : “..e a serpente era a mais astuta de todos os animais que Deus criou”. Ela estava lá. Na tentação de Jesus dos 40 dias no deserto, o tentador estava lá. No apocalipse, na luta de Micael contra o dragão, este já estava no céu, não se sabe como chegou lá. Nos contos de fadas, como p.ex, o do Chapeuzinho Vermelho, o lobo já está lá no bosque.

Em muitas dessas imagens, o Mal faz parte. Em algumas mitologias, isso já se encontra diferenciado, ou seja, já existe algo ou algum lugar de onde surge o Mal. Mas a necessidade de fato de entender o Mal surge na Grécia com o pensar lógico. Na Grécia tinham muitos deuses que estão relacionados com a realidade espiritual que se encontra atrás da meteorologia : Zeus, Deus do trovão e do relâmpago. Mitologias reconheciam o Mal e o Bem como forças originais, mas não chegam até aquela ideia de que tudo tem a sua origem.

Um dos primeiros filósofos, Epicur, em 300 AC, reconheceu o problema de tentar explicar a origem do Mal. Ele se colocava questões como :”Ou Deus quer eliminar o Mal e não pode, ou Deus não quer eliminar o Mal ; se Deus quer eliminar o Mal e não pode, ele é impotente e não é Deus ; se Deus pode eliminar o Mal e não quer, ele é malvado ; se ele pode e quer, porque não o faz ?”

Esse é na realidade o problema que nós temos. Um grande problema da filosofia foi tentar explicar o campo de concentração nazista :  Como Deus permitiu isso ? Como é possível que isso tenha existido ?

Existem aproximadamente umas 7 tentativas filosóficas e teológicas para tentar explicar de onde vem o Mal.

Uma delas, que se tornou a base da teologia católica, formulada por Agostinho e aprimorada por Tomás de Aquino, é que Deus em si é completamente bom, e por isso ele permitiu o Mal. Uma imagem que não explica, mas que nos ajuda a entender este ponto de vista, está na passagem da quinta-feira santa quando o Cristo diz a Judas para ir e fazer o que tinha de ser feito. O Mal não é criado por Deus, mas ele é permitido. Na cultura cristã a ideia é de que havia surgido um Deus bom.

Culturas mais antigas tem muito mais o pensamento de que o Bem e o Mal são as duas forças originárias de todo o mundo. Luz e Trevas eram desde o início Bem e Mal.

Uma terceira tentativa de explicação seria talvez a de reconhecer que os seres que provocam o Mal são anjos caídos. No Apocalipse existe a luta de Micael contra o dragão que é jogado na Terra com seus anjos. Por que eles caíram ?

Outra visão é a de que o Mal está na essência de Deus, de Deus em si, esta qualidade está n’Ele.

Outra possibilidade de explicação é a tendência de entender o Mal como uma imperfeição da natureza. Hoje em dia, é o que mais está no sentimento das pessoas. Por exemplo, quando aconteceu recentemente o assassinato de jovens por um homem numa colônia de férias da Noruega. O assassino era doente ou não? Há a tendência de dizer que algo no corpo dele não estava correto e isso causou esse comportamento, explicando o Mal a partir de uma doença. Diametralmente oposta é a concepção da cultura judaica no antigo testamento, para quem a doença é a conseqüência de um pecado, o pecado é que provocaria uma doença.

Um sexto ponto de vista traz o ser humano como causa do Mal. O Mal não existe em si, mas só no ser humano, como diz Guimarães Rosa, que começa seu livro Grande Sertão com um moto “o diabo no meio do redemunho”. O que está no meio do redemoinho ? O silêncio, o vazio. “O diabo vige dentro do homem…”  Na natureza não se pode falar de moralidade, porque essa é uma categoria do ser humano. O leão mata a gazela porque tem fome, não porque é malvado.

Dentre estes pontos de vista que se desenvolveram a partir da possibilidade do ser humano pensar logicamente, podemos encontrar um outro na Antroposofia. Rudolf Steiner apresentou muitos pontos de vista que nos trazem imagens mais completas e complexas de como o Mal pode ter surgido. Um dos primeiros é o conceito das hierarquias superiores. Vamos tentar pensar nessa realidade de 9 hierarquias, começando do ser humano até chegar à esfera que está acima, a esfera do divino , da Trindade, às três qualidade de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.

Se tentarmos conceber a realidade espiritual das hierarquias e daquilo que está acima delas, a Trindade, temos que igualmente conceber que o Mal está nessa origem. O Mal tem um sentido, uma tarefa, ele tem que existir. No último capítulo de seu livro O Conhecimento dos Mundos Superiores, R. Steiner descreve o desenvolvimento do mundo espiritual dizendo que este havia chegado a um ponto em que não havia mais como ir para a frente, e que para isso ocorrer seria necessário que surgissem seres com determinadas qualidades : esses seres eram os seres humanos. E que qualidades seriam estas que o ser humano teria que desenvolver para possibilitar a continuidade de desenvolvimento dos seres espirituais ? Por um lado a liberdade e por outro o amor.

O nosso planeta Terra e a natureza estão repletos de sabedoria, mas não de amor. Essa é a tarefa do ser humano, desenvolver a liberdade e a partir dela, a qualidade do amor. Assim como a natureza é reflexo de sabedoria, nos tempos vindouros, em uma próxima etapa futura da Terra, a natureza deverá ser repleta de amor. Isso nos remete à possibilidade de escolha entre o Bem e o Mal. O Mal está na vontade de Deus porque é necessário para nós humanos, para que possamos desenvolver a liberdade.

Como Deus criou o mundo ? “ O espírito de Deus pairava sobre as águas”. Deus não só cria algo, ele separa. Ele separou a luz das trevas. A tendência da separação está na vontade de criação de Deus. E o que acontece quando se separa ? Pode ser que aconteça algo bom, e pode ser que não. Nós fomos separados do Paraíso e a possibilidade de reconhecer o Bem e o Mal só foi possível depois de comer da árvore do conhecimento.

A separação provoca uma consciência maior. Também pode acontecer de , com a separação, surgir uma força não ligada à vontade divina, mas sim, com uma vontade própria.

Steiner descreve como seres muito elevados assumiram a tarefa de se separarem dos outros. Na realidade, fizeram um grande sacrifício, algo que realizaram para o desenvolvimento do Universo. Esses seres espirituais tem um relacionamento meio que “religioso” uns com os outros, eles se doam uns aos outros em devoção. E o que acontece quando uma hierarquia inferior tem uma atitude de fazer uma oferta para uma hierarquia superior, e essa oferta é rejeitada ? Abel faz seu sacrifício que é aceito por Deus, Caim faz o seu e é rejeitado, surgindo então o impulso de matar o seu irmão.

A rejeição é uma fonte de grandes problemas sociais. Quando olhamos do ponto de vista do desenvolvimento, o Mal só existe porque está fora do tempo e do lugar. O correto tem que ser correto no tempo correto. O que para um jovem é completamente correto, para uma criança é errado.

É no meio do redemoinho que temos que desenvolver o nosso Eu, e nesse espaço de possibilidade ainda vazio, criar a força de tomarmos decisões a partir das emoções. É nesse espaço que pode surgir o Mal no ser humano porque do amor a si próprio em muita quantidade surge o egoísmo. Na realidade estamos sempre entre a escolha do Bem e do Mal, e a tarefa é ter equilíbrio em relação a tudo. Isso é uma chave para lidar com o Mal cotidiano.

Steiner fez uma grande escultura de madeira cuja imagem traz uma polaridade entre seres com o homem no meio deles realizando o equilíbrio de forças. No Jó do antigo testamento, Satanás conversa com Deus e consegue permissão para tentá-lo. Mas Jó não tem ainda esse adversário em si, o Mal ainda está só do lado de fora. O Fausto de Goethe não é tão puro como Jó, ele já tem em si o desejo de conhecer.

A atuação do Mal que tem muito a ver com a nossa atualidade está ligada ao desenvolvimento da genialidade com a anulação do que são as forças do amor. Na atuação do Mal a partir do século XIX temos o “dragão” atuando na Terra, e uma demarcação clara disto é o nazismo, o processo industrializado do Mal.

As tempestades para nós não são mais uma manifestação do Mal, mas sim, como nos resolvemos no íntimo de nós mesmos. Na confrontação com esta tarefa, podemos desenvolver algo superior como o Bem, o Belo, o Verdadeiro. E construir o Amor como superação do egoísmo.

 

Resumo da palestra proferida pelo Sacerdote João Torunsky

Sociedade Antroposófica no Brasil – 16/11/2016

O papel do pensamento e do sentimento na Meditação

Na lenda do Graal existe um primeiro momento onde Parsifal se encontra com o rei ferido. Ele estava em busca do espírito e, com a educação mais nobre que possuía, encontra um ser humano ferido. Essa educação toda vale para o espírito através do mundo, mas perante o rei ferido, não vale mais nada. O rei Amfortas é a imagem do ser humano em si que se feriu. Qual seu sofrimento ? Parsifal não sabia e não perguntou.

Com o conhecimento da humanidade até aquele ponto, não havia como perguntar sobre a ferida da relação entre o corpo e o espírito, entre a corporalidade e a espiritualidade. Apenas a alma é capaz de curar esse ferimento, e essa alma só pode atuar em conjunto com outra alma. O Graal não era capaz de curar essa ferida espiritualmente incurável, mas, através da pergunta da alma que se comove, a cura se torna possível. Se torna possível mediante a compaixão e o encontro das almas , da conexão das almas através da pergunta.

Há mais ou menos 100 anos houve um acontecimento na Europa que teve um impacto importante para todo o século XX ,fato este sem o qual o século XXI não teria encontrado a si mesmo. A identidade do século XX se define neste momento, entre 1912 e 1915. Isso a que me refiro foi a publicação da obra mais importante de Franz Kafka “A Metamorfose”.

Ela retrata a estória de um ser humano que acorda pela manhã com a consciência de si mesmo, mas o seu corpo não é mais humano e sim o corpo de um inseto, uma espécie de besouro, um escaravelho. O ser humano que perde a sua aparência humana, não é mais considerado humano. Mas essa estória revela que não somos humanos pela nossa aparência, mas sim na medida em que somos reconhecidos como humanos por outros seres humanos. Ela revela como somos dependentes da percepção dos outros.

Antigamente dependíamos apenas de Deus e da natureza, mas a partir de Kafka nos é mostrado o raiar de uma nova era onde não dependemos só de Deus e da natureza, mas de outro ser humano.

Quanto mais as pessoas ficam inteligentes mais se criticam, e seria bem mais interessante se os homens deixassem valer a diversidade da diferença. A tolerância deveria ser uma atitude passageira e o que deveria se colocar no lugar dela é o reconhecimento – apenas ele torna o ser humano, humano. Os sentimentos que são evocados quando somos reconhecidos e compreendidos nos dá a medida de que seres humanos precisam de seres humanos.

Todos nós, de uma certa maneira, somos especialistas em sermos seres humanos, mas isso não basta, ainda que vemos como algumas pessoas se tornam os modelos de humanos para nós, como p.ex Nelson Mandela, Gandhi, Martin Luther King. São pessoas que conseguem viver suas vidas para além do limite do particular, e com isso ajudam outros a descobrir e reforçar o humano em nós. Será que podemos defini-los como especialistas enquanto seres humanos ? Acho que é mais o contrario disso, eles conseguiram enxergar não o específico, mas o que vive no ser humano como humano. E Meditação é esse humano se revelando em cada ser humano.

Antigamente a meditação era um caminho que possibilitava a conexão com uma realidade espiritual, mas agora, é um caminho para que o ser humano possa reconhecer o humano em outro ser humano para além de todas as ideologias e de tudo o que é religioso. O tornar-se humano no ser humano é o caminho da Meditação e em seu centro se encontra o tornar-se um ser humano que, por disposição, já se é.

O ser humano se encontra em um limiar existencial, mas no exato momento em que começa a se perguntar “quem sou eu enquanto ser humano ?”, começa um novo destino. Até então, valeu um destino que o conduziu, mas a partir de agora o que valerá é até onde pode carregar o seu próprio destino. A partir da pergunta “Quem sou eu ?”, se o ser humano não age, principia um processo de desumanização. Os genocídios por convicções religiosas demonstram isso. A humanidade conheceu excessos de desumanização no século XX, a estória do Kafka é o que ela vivenciou até então.

O que será que o ser humano precisa quando começa a carregar seu próprio destino ? O que ele precisa quando se faz a pergunta “ Homem, reconheça a si mesmo ?”. A partir do momento que não se é mais carregado pelo destino, e sim que o carrega, o homem percebe que não consegue fazer isso sozinho, toda a educação não o ajuda nisso, ele precisa de outros seres humanos que o queiram enxergar, que o reconheçam. E para que se torne uno o ato de ser reconhecido, para que um e outro se torne um, é necessário uma nova unidade criativa, a união do sacerdote e do ferreiro. E isso se torna o centro de experiência Crística.

No Evangelho de João cap. V isso é descrito quando o Cristo diz que seus discípulos não são mais seus serviçais, mas se tornaram seus amigos. Esse é o momento de nascimento de uma nova união de seres humanos.

Gostaria de abordar agora algumas qualidades fundamentais que são experiências que gostariam de se tornar valores, em outras palavras, trazer o esboço de um novo ensinamento das virtudes, qualidades do humano universal que só são possíveis de experienciar na relação com seres humanos. Isso não dá para ser deduzido de forma apenas filosófica, é preciso ter-se a experiência humana compartilhada na própria vida, e ela tem que ser recíproca.

São sete (7) experiências,qualidades que podem se tornar virtudes:

1)    Respeito perante a solidão

O homem moderno autoconsciente é solitário, ele tem esta espécie de saudade de se inteirar com a solidão, o Eu é solitário, a amizade não serve para superá-la, mas sim para se tornar guardiã da solidão do outro.

2)    O outro sempre permanecerá um enigma

Quanto mais eu compreendo e reconheço o outro, mais ele se torna enigmático, é a consciência de si mesmo a partir da alteridade, o si próprio se reconhece a si mesmo, mas o autoconsciente sempre vai ser permeado pelo estranho, não existe caminho de volta para o paraíso, o estranho é o que é verdadeiramente familiar.

3)    A evidência

Esta qualidade tem um papel importante na amizade, o amigo não precisa se explicar ao amigo, este se torna visível e evidente, o que se reconhece não precisa de explicação ; nesse ponto, a amizade vai além do mero reconhecimento, ela nos torna capazes de reconhecer mais o outro do que a nós mesmos. Essa evidencia é o testemunho do humano no outro e a partir daí começa o seguinte processo : o outro carrega comigo o meu destino e isso é o que transforma a minha vida.

4)    A capacidade de se deixar impressionar

Todas as qualidades anteriores são uma preparação para esta que é a mais difícil, pois ela é trazida de fora, ela pode acontecer ou não; o decisivo é a pessoa que fala algo que nos impressiona. Quando prestamos atenção àquilo que nos move, isso gera alguma impressão em nós, e pode nem sempre ser algo agradável. Esse quarto ponto é onde a simpatia e a antipatia se tornam mensageiros para alguma coisa que vai muito além.

5)    Amar as contradições

Essa é uma qualidade totalmente nova, seria muito idealista negar as contradições. Porque será que a cultura dos poetas e dos músicos se tornou atuante nos genocídios e destruições ? Porque compasso e Mozart não se excluem de maneira nenhuma. O supremo bem e o supremo mal pertencem um ao outro. Quem acha que só se dirige ao bem, se dirige à uma ilusão. Se aceitamos a contradição como fato dado, deixamos de aplicar uma ética normativa, e passamos a nos aproximar de uma postura amante e compreensiva dos erros dos outros.

Segundo R. Steiner “Quanto maior a faculdade de consciência no ser humano, maior a sua inclinação para o mal”. Quanto mais consciente de si mesmo, mais o homem tem que aprender a desenvolver o manejo das diferenças, e nisso somos dependentes dos outros seres humanos. Quanto mais consciência, mais contradição, é necessário termos amigos que compreendam isso.

6)    Assimetria nas relações

Toda amizade é assimétrica, não existe justiça nela, senão não seria amizade. Um dá algo para o outro, o outro dá outra coisa, isso é muito diverso ; um relacionamento real e verdadeiro entre individualidades é assimétrico.

7)    A verdade se transforma em veracidade

O antigo ensinamento das virtudes platônicas se transforma, em um ensino moderno, no suscitar do próprio Eu na face do amigo ; a qualidade subjacente é a liberdade que vive no amor ao agir permanente. Permitir viver no amor ao agir, e deixar na compreensão da vontade do outro.   Isso é o cerne de uma nova ética, essa ética meditativa que surge na face do outro, esse outro que, através da amizade, se torna para mim o mundo espiritual. Esse mundo espiritual não vive no além, em um lugar distante, mas no ser humano que eu reconheço.

Finalmente, na meditação não existe um ensino linear de causalidade, pois não é porque se medita isso ou aquilo que a coisa vai acontecer, mas a meditação é sua própria pré condição e conseqüência. O Eu humano é do mesmo jeito. As 7 qualidades são pré requisito e conseqüência, e assim, dessa maneira, abandonamos o pensamento causa / efeito.

Palestra proferida por Bodo von Plato no II Fórum de Meditação na Sociedade Antroposofica em 31/08/2013

 

Condições para a Disciplina Espiritual

Muitas pessoas acreditam que seria preciso procurar em determinados lugares, os mestres do saber superior para deles se obterem esclarecimentos. Aquele que aspirar seriamente a esse saber superior, não poupará nenhum esforço na busca de um iniciado, mas cada um pode também estar certo de que a iniciação o encontrará infalivelmente, desde que haja uma séria e digna aspiração ao conhecimento.

Certa disposição fundamental da alma deve constituir o início – a trilha da veneração, da devoção diante da verdade e do conhecimento. A altura do espírito só pode ser alcançada quando se entra pelo portão da humildade. E isso não é possível através de estudos, só a vida poderá fazê-lo. O discípulo terá de procurar em sue ambiente, em suas vivências tudo aquilo que possa causar admiração e respeito. Como o Sol vivifica através de seus raios tudo que tem vida, assim a veneração vivifica todas as sensações da alma .

O prazer é apenas um meio para enobrecer-se para o mundo, é, para o discípulo, um explorador que o orienta sobre o mundo, mas após o aprendizado mediante o prazer, terá de prosseguir em direção ao trabalho ; ele não aprende afim de acumular o aprendizado como seu tesouro se sabedoria, mas, sim, para colocá-lo a serviço do mundo.

Uma das primeiras regras práticas : reserva-te momentos de calma interior, e aprende, em tais momentos, a discernir o essencial do acessório. Quem procura corretamente tais momentos de retiro, logo perceberá que, justamente através deles, estará sustentando toda a força para a sua tarefa diária. O “Homem Superior”, no homem, está em constante evolução, mas somente por meio da calma e firmeza lhe é permitida uma evolução regular. O discípulo terá de, dentro de si próprio, fazer com que nasça um novo homem, mais elevado.

A vida da alma de pensamentos que, cada vez mais se amplia para uma vida em essência espiritual denomina-se meditação – ela é um meio para a contemplação do cerne do ser,para o conhecimento superior, para a cognição supra-sensível.

É preciso que, aquele que se torna discípulo, não perca nada de suas qualidades de nobreza, bondade e sensibilidade de pessoa acessível à toda realidade física ; no decorrer do aprendizado, ele terá de constantemente aumentar sua força moral, sua candura interior, sua capacidade de observação, cuidar para que sua compaixão para com os mundos humano , animal e a com a natureza seja aumentada. Gratidão perante tudo que advém ao homem.

Deve-se aspirar, quanto à paciência, a um especial desenvolvimento ; cada impulso de impaciência tem um efeito paralisante sobre as faculdades superiores adormecidas no homem.

Dentre as características que deverão ser combatidas, tanto quanto cólera e aborrecimento, figuram pulsilanimidade, superstição, preconceitos, vaidade, ambição, curiosidade, loquacidade desnecessária, discriminações relativas a classe, sexo e raça.

Depende inteiramente da livre vontade de cada um o fato de desejar ou não trilhar o mesmo caminho. Com relação às condições para o aprendizado, não se exige um integral cumprimento, mas simplesmente o aspirar rumo ao cumprimento, o que importa é a vontade, a intenção de pôr-se a esse caminho.

É necessário dedicar atenção ao aprimoramento da saúde corpórea e espiritual. Em sentido físico, tratar-se-á antes de afastar influências nocivas do que de outra coisa. Uma doentia vida sentimental e mental desviará dos caminhos ao conhecimento superior.

Sentir-se qual um membro de toda a humanidade, perseverança no cumprimento de uma decisão uma vez tomada e elevar-se a conscientizações de que seus pensamentos e sentimentos tem tanta importância para o mundo quanto seus atos é fundamental, pois a verdadeira entidade do homem não reside no elemento exterior, mas no interior.

E com relação aos assim chamados “exercícios colaterais”, ou 6 qualidades ligadas ao desenvolvimento do sentido ligado ao coração : controle dos pensamentos, controle das ações, persistência, tolerância, imparcialidade, equanimidade.

As condições impostas visam fazer com que o discípulo se torne suficientemente fortalecido afim de corresponder às demais exigências que a vida terá de impor-lhe, pois, sem elas, não terá nos homens a confiança que se lhe fará necessária.

E é precisamente na confiança e no verdadeiro amor à humanidade que todo aspirar pela verdade terá de ser consolidado.

O Conhecimento dos Mundos Superiores

Rudolf Steiner

Published in: on 12/04/2012 at 7:30 p04  Deixe um comentário  

Meios Eletrônicos e Educação : Nova Vida ou Destruição?

                   

Os meios eletrônicos (TV, video games, computador e Internet) estão sendo cada vez mais usados por crianças e adolescentes. Esse verdadeiro ataque à infância e à juventude começou entre nós na década de 1950, com o advento da TV. No entanto, há diferenças brutais entre aquela época e a presente. Por exemplo, a TV penetrou nos dormitórios das crianças e aparelhos portáteis como jogos eletrônicos e celulares conectados à Internet podem ser usados em qualquer lugar. Com isso, os pais perderam totalmente o controle do que os filhos vêem e fazem com os aparelhos.

 Os resultados têm sido absolutamente catastróficos, como por exemplo a diminuição do rendimento escolar, o que já está plenamente provado por pesquisas estatísticas.

 Todos esses aparelhos têm algo em comum: trabalham com telas. A consequência imediata disso é que o usuário tem que ficar imóvel à frente deles, em geral sentado. Obviamente existem exceções, mas a quase totalidade do uso de aparelhos com telas exige que o usuário fique sentado sem fazer nada – ou quase nada.

A sucessão muito rápida de imagens faz com que não se consiga refletir sobre o que está sendo visto. Esse estado interior de relaxamento corresponde a um estado de sonolência, semi-hipnótico, o que já foi comprovado por vários estudos neurofisiológicos.

O estado de sonolência do telespectador tem duas consequências principais. Para impedir que a pessoa passe para o sono profundo é necessário apelar para emoções fortes, já que o adormecimento do telespectador seria um desastre para os anunciantes (ou para o nível de audiência no caso da TV pública ou educativa). Por isso há tanta violência e erotismo na TV, e todo programa tem que ser movimentado, tipo show.

Há aqui um círculo vicioso: para que o usuário da TV não adormeça, é necessário que as imagens mudem rapidamente .

 Por outro lado, quanto mais as imagens se movimentam, mais o telespectador “desliga” sua atividade mental consciente. Em segundo lugar, tudo o que ele vê fica gravado em seu inconsciente, isto é, a TV é subliminar por natureza. Essa é a situação ideal para a propaganda: gravação, sem crítica, no inconsciente. É muito importante saber-se que o ser humano grava todas suas vivências, a maior parte no sub e no inconsciente.

Um jovem, ao entrar na universidade, carrega em média pelo menos 20.000 horas de lixo mental da TV e dos jogos eletrônicos.

 Tanto a violência e o erotismo, quanto a gravação no inconsciente é trágica  no caso de crianças e adolescentes, pois eles estão formando sua mente. Quem acha que tudo isso passa em brancas nuvens não tem bom senso e não conhece as pesquisas sobre as influências da violência e do erotismo nas pessoas, em particular nos jovens. Está mais do que provado que a TV e os jogos violentos aumentam a agressividade, de curto a longo prazo.

Todas as crianças querem é brincar e se divertir, o que é perfeitamente normal e sadio. Se não for assim, já perderam boa parte de sua necessária infância e juventude. Então, o que eles fazem com computadores e a Internet? Brincam e se divertem!

Imagine-se uma sala de aula com os alunos digitando em seu micro. Como eles prestarão atenção ao professor? Por isso e outros prejuízos para o ensino, várias escolas americanas proibiram que seus alunos trouxessem um computador para a escola.

Está mais do que provado, inclusive com um estudo da Unicamp, que quanto mais um jovem usa um computador, pior seu rendimento escolar.

 Além do tempo perdido com coisas inúteis ou mesmo prejudiciais para a  educação, em minha concepção existe um fator profundo para o computador  influenciar negativamente o desenvolvimento. Acontece que ele é uma  máquina matemática. Qualquer comando que se lhe dê, mesmo acionando um  ícone, provoca internamente a execução de uma função matemática de  manipulação de símbolos.

 Assim, o usuário, sem o perceber, está sendo forçado a pensar  matematicamente. Isso não é sadio na idade infantil, pois a mente, e nem  mesmo o cérebro, estão preparados para esse tipo de atividade mental. Forçar um raciocínio abstrato antes da maturidade necessária significa prejudicar as funções mentais, por exemplo a capacidade de fantasiar, de imaginar, e portanto a criatividade.

Essa é uma das consequências trágicas da escolaridade precoce, como por exemplo ensinar a ler antes dos 6/ 7 anos de idade Um outro fator que prejudica a capacidade mental e de concentração é a enorme fragmentação produzida pelas imagens e, no caso dos computadores, pelo fato de se ter em geral várias tarefas ativas ao mesmo tempo. Isso ainda é piorado com o uso simultâneo de vários aparelhos, algo muito apreciado pelos jovens. Uma boa parte da educação deveria voltar-se para o desenvolvimento da capacidade de concentração, que é obviamente prejudicada por essa “multitarefa”.

Por outro lado, o uso de qualquer meio eletrônico exige um enorme autocontrole. Adultos viciam-se em TV, nos jogos violentos e na Internet; imagine-se então o que ocorre com crianças e adolescentes, que não têm autocontrole para, por exemplo, limitar o tempo de uso. Aliás, uma das consequências nefastas garantidas desses meios é diminuir a força de vontade – o mesmo efeito das drogas alucinógenas.

É preciso chamar a atenção para o fato de que a Internet apresenta um perigo imenso para crianças e adolescentes, eles não têm o necessário discernimento para distinguir o que é verdadeiro do que é falso, do que é bom e do que é mau, do que é apropriado ou não para sua maturidade e cultura.

Finalmente, é preciso entender que não é, em absoluto, necessário que crianças e adolescentes usem os meios eletrônicos. Qualquer pessoa pode aprender a usá-los na idade adulta jovem. Por outro lado, os benefícios que eles podem trazer à educação são infinitamente suplantados pelos prejuízos.

Trechos selecionados do artigo de Valdemar W. Setzer
Depto. de Ciência da Computação da USP
www.ime.usp.br/~vwsetzer

Published in: on 21/11/2011 at 7:30 p11  Deixe um comentário  

O Mal no caminho do Desenvolvimento Humano

 

Observem a imagem do arcanjo Micael empunhando uma espada com seus braços fortes.

A espada / lança é de ferro, que é a substância usada no combate.

Esse elemento (ferro) está relacionado às forças de Marte, também ligado à qualidade da fala, a força da palavra.

Um grande artista brasileiro da palavra foi Guimarães Rosa.

Seria possível fazer um estudo do encontro com o mal a partir do   “Grande Sertão : Veredas” ?

Guimarães faz conscientemente o uso da palavra contra o mal.

Mais do que uma escrita, o livro é uma fala, tudo tem som, a força da fala está presente.

O livro não é dado de presente, mas quando se termina de lê-lo, a pessoa não é mais a mesma que o começou. As primeiras trinta páginas tem todo o conteúdo, é difícil, mas é um processo transformador.

Até que ponto no combate ao mal, não nos tornamos tão maus quanto aqueles que queremos combater ?

O que se faz para combater o terrorismo ? Como reconheço esse mal ? Como posso superar esse mal não sucumbindo a ele ?

Para combater qualquer coisa é preciso conhecê-la, e não dá para combater aquilo que negamos.

Os seres do mal são seres espirituais. Conhecer o mal é tarefa do ser humano.

O anseio pelo conhecimento do mal é motivo do personagem principal do Grande Sertão, Riobaldo – rio baldo, aquele que faz a travessia, um épico, como um conto de fadas. Ele está o tempo todo perguntando.

Os seres demoníacos da terceira hierarquia se atrasaram na sua evolução ; seu grupo fazia isto, mas eles não o fizeram naquela época e agora vêm fazer o que não foi feito, ou seja, o desenvolvimento do Eu, da individualidade.

Esses seres que na antiga Lua não desenvolveram sua individualidade são os seres Luciféricos – agora eles usam o ser humano para essa finalidade e são afins com o corpo astral.

Similarmente, no antigo Sol, os seres Arimânicos que se atrasaram na sua evolução são afins com o corpo etérico do ser humano, e, da mesma forma, no antigo Saturno, os seres que se atrasaram são os Asuras, afins com o corpo físico humano.

Esses seres não podem atuar diretamente nos corpos, mas na alma humana.

 Assim temos :

 No corpo astral, a alma da sensação, os seres luciféricos

No corpo etérico,a alma do intelecto, os seres arimânicos

No corpo físico, a alma da consciência, os azuras.

 E além desses três , Rudolf Steiner se refere ao Zorat, demônio do Sol, anterior à evolução humana em Saturno, que atua o Eu humano no Cosmos – carmicamente um Anti- Eu.

A vivência do Cristo etérico é uma vivência da separação do Mal na alma humana. O primeiro âmbito para superar as forças do Mal é na alma da sensação, dos sentimentos, e assim por diante. Essa luta tem que ser travada dentro de cada um, no interior da alma individual.

A estória de Riobaldo é muito emblemática, acontece no interior e no exterior do ser humano. Sinaliza o fim do Kaliyuga e o começo da atuação de Micael na Terra.

Com relação à alma da sensação, a superação do Mal ocorre na medida em que o homem se preocupa em transformar suas tendências amorais, seu egoísmo, seus baixos instintos, e consegue isso através de auto conhecimento e reconhecimento .

Com relação à alma do intelecto, o homem tem que superar a mentira, toda forma de medo, e a tendência para o materialismo através de decisões justas, juízos corretos, organizações socialmente justas, formar considerações apropriadas através do estudo de assuntos que não domina; desenvolver um conhecimento individual interno, um pensar vivo, orgânico, espiritual, do coração, capaz de superar o pensar frio e puramente racional.

Com relação à alma da consciência, e para se contrapor aos azuras neste lugar, o homem tem que dar um passo para se apossar da sua própria liberdade – vivência do limiar, processo de iniciação, encontro com o guardião do limiar. “Viver é muito perigoso”, é o mote do livro.

É quando os controles externos desaparecem e então, tudo se pode.

O perigo do ser humano que passa por esse processo é a vivência do poder, pois com ele pode-se tudo para o bem ou para o mal.

A responsabilidade do ser humano passa por aqui. Ele tem que resistir às tentações.

De onde provém o poder ? O ser livre percebe a quem obedece.

Só se pode contrapor ao Não Sou com o Eu Sou, através do Eu do Cristo.

O ser humano precisa deixar de ser para ser através do paradoxo, ser              “ O Cristo em mim”.

 Diadorim é um dos personagens mais misteriosos da estória, um bom lutador com faca. Um anjo micaélico ?

A experiência do Cristo também se dá na impotência – o ser humano deve ser capaz de passar pela impotência interior e da ressurreição originada nela, na vivência do “não poder” tem-se a experiência do Cristo.

A peça esculpida em madeira por Steiner, da Figura do Homem, traz  claramente a imagem do equilíbrio das forças, assim como a meditação da pedra fundamental , que apela à alma humana e às hierarquias superiores na direção da luz do Cristo.

Marilda Milanese

Dia de Micael 29/09/2009