Caminho Interior

Claude Monet

Um tema fundamental para a compreensão do significado, da abrangência e da profundidade da Antroposofia, é o que Rudolf Steiner denominou de Caminho Interior.

Como a própria palavra já diz, trata-se de uma jornada individual de auto- conhecimento e auto- desenvolvimento que consiste, inicialmente, na prática de vários aspectos e atitudes mais nobres da alma, como tolerância, gratidão, compaixão, assim como o controle e a contenção de impulsos ligados à nossa natureza mais primitiva, como a cólera, a vaidade, a inveja.

Ao longo de toda sua obra, podemos encontrar inúmeros exercícios e indicações para o fomento de tais características. Momentos de paz interior, de silenciosa observação do mundo e de si mesmo, fazem parte do cotidiano daquele que busca em plena consciência e livre arbítrio, o aprimoramento de sua humanidade.

Colocando em termos da linguagem da Psicologia, podemos dizer que este tema está relacionado ao desenvolvimento do Ego na direção do Self, da depuração das necessidades mais instintivas da nossa constituição, em favor de qualidades éticas e humanas mais elevadas.

Para a Ciência Espiritual, a evolução caminha na passagem de comando do nosso eu inferior, para o nosso Eu Superior, nossa verdadeira identidade.

Em resumo, como assinalado acima, o cultivo desse, por assim dizer, treinamento, representa uma etapa inicial deste Caminho Interior, um preparo indispensável para a lapidação do caráter afim de que possamos adentrar com mais segurança no âmbito da Meditação propriamente dita.

Mas esse é um tema para um próximo post.

Eliane Utescher

Psicóloga / Terapeuta Biográfica

15/11/2019

Published in: on 03/04/2020 at 7:30 p04  Deixe um comentário  

A Força da Conexão

Eros e Psiquè . Canova
                                                       Eros e Psiquè
“Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
                                                                                                                                                      A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
      Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
                                                                                                                                        Mas cada um cumpre o Destino
                                                                                                                                                    Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
                                                                                                                                           E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.”
                                                                            Fernando Pessoa

A inspirada poesia de Fernando Pessoa é uma bela imagem para o que se revelará, no final, como sendo o surpreendente encontro de alguém consigo mesmo.

Da mesma forma, a maravilhosa escultura de Canova, Eros e Psiquè, nos contempla com o cuidadoso empenho do amor em amparar a alma desvalida no chão.

Ambas são boas metáforas para a arte do encontro e do vínculo que se estabelece na relação entre o paciente e o psicoterapeuta na abordagem clínica antroposófica.

Inúmeros são os motivos que levam uma pessoa a procurar apoio emocional: uma doença, a perda de um ente querido, uma ruptura afetiva, uma crise existencial. Fato é que ela busca ajuda para algo que não está conseguindo fazer por si só:  a reconexão com a vida.

Inicialmente, o terapeuta utiliza dos seus recursos para formar o diagnóstico, obter uma visão abrangente da situação, e das ferramentas necessárias ao tratamento. Leva em consideração a constituição do paciente, a dinâmica dos corpos, a correlação entre as instâncias da alma, a etapa biográfica. Ao longo do processo ocorre, então, o momento onde ele precisa se abster de todo saber e abrir o espaço entre si e aquele que se encontra à sua frente. Silencia a sua mente.

Ele sabe que o vazio é necessário para que algo de natureza sutil e sanadora se manifeste. Ali, bem na região do meio, da troca, território do humano por excelência. Ele abre o seu coração e assim instaura a conexão amorosa que acolhe o outro e o leva de volta ao caminho de casa. Ao seu próprio Eu.

Para a Ciência Espiritual de R.Steiner, o amor é a causa última do desenvolvimento humano.

Ciente de que está a serviço de uma força maior e mais curativa, o profissional promove a alternância entre a fala e a escuta, para que o intermezzo carente de sentido, vá dando passagem ao que verdadeiramente preenche, ao que é pleno de significado, ao que é Presença.

“Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou no meio deles”.                                                                                                                               Matheuz  18:20

Eliane Utescher

Psicóloga / Terapeuta Biográfica

20/09/2019

Published in: on 08/10/2019 at 7:30 p10  Deixe um comentário  

Vitalidade e Consciência

A Criação de Adão . Michelângelo

No tratamento clínico em Psicoterapia Antroposófica, um dos aspectos relevantes levados em consideração, é o estado físico/ orgânico do paciente que procura apoio psicológico.

Ciente das leis que regem a dinâmica dos corpos que constituem a natureza humana, a saber, corpo físico, corpo vital, corpo emocional e corpo essencial (Individualidade), temos que manter o foco na saúde como um todo, o que, algumas vezes, pode significar uma condução terapêutica inicial que privilegia a regeneração das forças vitais em detrimento da aquisição de mais consciência.

Isso ocorre basicamente em casos de doenças graves, como, por ex, o câncer, cuja convalescença durante a rádio e/ou quimioterapia, consomem enormemente a energia vital do paciente. Calor e acolhimento são fundamentais.

Durante um certo período, ele mal tem forças para dar conta do mal estar físico que esses procedimentos desencadeiam, que dirá elaborar questionamentos sobre os desequilíbrios emocionais subjacentes à sua doença.

É preciso que, o cuidado com os ritmos diários, com sua “nutrição” – sono, alimentação, lazer, etc – sejam bem preservados durante o tratamento psicológico.

Em outras palavras, a busca de equilíbrio, neste contexto, significa, num primeiro momento, optar por uma abordagem que estimule a relação do paciente com a vida através de dinâmicas interativas, abordagem corporal e atividades artísticas revitalizantes, para que, num segundo momento, quando ele esteja mais organicamente recuperado, possa, aos poucos, ir desvendando e compreendendo racionalmente as questões que exigem mais consciência ,que consomem mais energia, como por ex. ,os pensamentos, sentimentos e anseios conflitantes em sua alma.

Eliane Utescher

Psicóloga / Terapeuta Biográfica

26/07/2019

Trauma e Espiritualidade

 

Através da experiência de estar ao longo dos últimos 13 anos em praticamente todas as catástrofes que aconteceram no mundo, posso concluir que o trauma é sim uma ferida, uma abertura onde o organismo se abre. Nessa ferida podem entrar novas dimensões da vida, e assim, estas novas percepções que o indivíduo tem, podem ter características de céu ou de inferno.

Quando a pele se rompe no organismo humano, alguma coisa sai para fora, que pode ser o sangue; alguma coisa pode entrar, como os germes, por ex, que trazem uma infecção. Em geral, uma ferida no corpo se cura por si só. Assim também acontece com uma ferida anímica. Uma ferida na alma também se cura pelas forças internas que possuímos, pelas resiliências que temos. Mas também podem entrar “bactérias” que acontecem de ser um risco de vida, feridas que infeccionam animicamente.

Pedagogia de Emergência é uma providência que busca cuidar do trauma quando ele acontece. O trauma pode ser como um fechamento, um endurecimento, um congelamento consequente do choque. O estado de sono, a alimentação, a respiração, tudo muda depois disso, o choque causa um distúrbio rítmico muito forte na pessoa.

No choque traumático a pessoa fica presa no corpo, é como uma câimbra, e enquanto ela permanecer nesse endurecimento, a ferida não se cura. A Pedagogia de Emergência busca fazer a harmonização dos ritmos naturais no campo das forças vitais, no campo etérico.

Com relação à esfera das emoções, no corpo astral, o caminho é semelhante. Trauma nesse âmbito, é um distúrbio das relações. Cada sentimento que a gente tem sai da respiração, que é diferente quando se está alegre ou triste. Na inspiração acordamos, nos voltamos para nós mesmos, e na expiração como que adormecemos, e estamos mais para fora, no outro. Nesse ritmo está a nossa capacidade de nos comunicar, dialogar, nossa capacidade social.

No trauma ocorre uma profunda inspiração e não se consegue mais expirar, a pessoa fica presa dentro de si mesma em tensão. Esse é o motivo do isolamento das pessoas depois de um trauma, elas só conseguem vivenciar a si próprias e se tornam egoístas, a empatia se apaga.

Distúrbio anímico também se dissolve com a Pedagogia de Emergência. A nível da essência espiritual humana, do Eu, o trauma é uma experiência de morte, como se a pessoa fosse arrancada dela mesma; ela tem a sensação de estar fora do corpo, vendo-se do lado de fora, e não sente mais as partes do próprio corpo. Como harmonizar o corpo e os sentimentos?

O trauma se desenvolve em 4 fases, assim como as leis:

  • Fase aguda, onde aparecem muitos sintomas, como por ex., pulsação rápida, respiração curta, tremedeira, suor, porém eles desaparecem rapidamente
  • Reações pós-traumáticas, onde podem aparecer centenas de sintomas diferentes, como problemas de concentração, problemas de memória, situações de flash back anormais de lembranças, distúrbios do sono, da alimentação, da respiração, raiva, depressão, etc…Esses sintomas podem demorar alguns meses, porém se permanecerem é mais problemático, a ferida se transforma em doença.
  • Transtornos pós-traumáticos, que são os sintomas da segunda fase que se instalaram e viraram doença, como por ex., hiperatividade, depressão, ansiedade, que podem durar anos.
  • Mudanças permanentes da personalidade, que é a cronificação da fase anterior.

O trauma vai corroendo a nossa biografia. As pessoas podem machucar os outros, a si mesmas, ou se tornarem suicidas. As duas fases iniciais atacam principalmente o corpo físico e o corpo vital (etérico), na terceira fase os sintomas se instalam no corpo emocional (astral), e na quarta fase a identidade da pessoa fica completamente comprometida, ela tem falta de identidade.

Os quatro corpos constituintes do ser humano se comportam como a construção de uma casa por onde passou um terremoto. Algumas partes ficam com rachaduras de forma que ninguém pode viver aí, ou a casa inteira desmorona. O trauma é um terremoto na alma das pessoas. Porém, também é fato que , quando os terremotos acontecem, algumas percepções, que não existiam anteriormente, entram em nós.

O trauma é uma vivência de limite, de limiar entre a vida e a morte, onde as experiências de morte estão muito próximas. Para alguém chegar na morte, existe o caminho natural, existe o caminho iniciático, cujo objetivo é a ampliação de consciência, e existe um terceiro caminho através do trauma. Esses 3 caminhos são muito diferentes entre si. O caminho da iniciação é uma preparação para o caminho natural, mas o trauma é um caminho que não foi tomado em liberdade, onde o indivíduo foi jogado nele, ou onde ele ultrapassa o limiar sem estar pronto.

No limiar da morte os corpos suprasensíveis começam a se desprender do corpo físico. Quando o corpo etérico se desprende, aparece o panorama da nossa vida, os sentidos se desprendem do corpo físico, a orientação do tempo se perde, assim como todos os ritmos da Terra. Na sequência, quando a orientação à minha própria pessoa também se perde, essa é do âmbito do corpo astral, e por fim, ocorre a dissociação aonde se sai de si mesmo.

Todas as pessoas que tem experiência de quase morte, fazem o mesmo relato. Todas essas coisas transcorrem no trauma. Mas acontecem por partes, por ex., o corpo etérico se retira de um órgão, como do pulmão ou do intestino. Dessa forma, no trauma, quando as forças etéricas são arrancadas de um órgão, elas impregnam a alma, e assim, a função de morte do intestino vai para o anímico.

Já o corpo astral arrancado do corpo físico no trauma, leva a que, pensar/sentir/querer, que estavam juntos como uma água em um jarro e tinham uma forma, se desmanche quando quebra o jarro e as qualidades anímicas se espalham gerando doenças psico patológicas.

Todo caminho iniciático, todas as escolas de mistério, conduzem até este ponto, quando as 3 partes da alma se separam; o Eu desenvolvido e forte sustenta as coisas, são vivências de um caminho interior.

O trauma é o encontro não preparado para se chegar ao limiar. Ele pode destruir uma pessoa. No mínimo, ele fere muito, mas também tem muitas pessoas que conseguem trabalhar e integrar isso na sua biografia, e elas podem aceitar o seu destino. As pessoas que conseguem trabalhar o trauma são amadurecidas, elas sabem distinguir as prioridades, a espiritualidade tem um papel importante.

Hoje a ciência já fala de um crescimento da síndrome pós-traumática. Como acontece o crescimento pós-traumático?

A raiva e o ressentimento mantem o indivíduo preso no trauma. É através do perdão que ele pode ser libertado, mas esse processo pode demorar muito. A raiva é o primeiro passo para a transformação de um trauma. A raiva, o desespero está dentro do ego ; depois de um tempo esse ego pode deixar de ter necessidade de vingança, e aí se cria uma abertura por onde entra alguma coisa que preenche esse espaço anímico. Isto que flui para dentro é o Eu Superior. Isso é uma dádiva, quando o eu inferior se “sacrifica”, por assim dizer, e dá espaço para o Eu Superior.

O trauma cria uma relação de vítima e algoz que, na próxima encarnação vai exigir uma remissão. O trauma tem um aspecto de morte e ressurreição.

Finalmente, um terceiro momento nesse desenvolvimento, é quando a própria substância crística do Eu Superior flui para dentro deste espaço. É a partir desse ponto que o perdão se torna possível, quando a gratidão e a graça se manifestam.

 

 

Palestra proferida na sede da Sociedade Antroposófica / SP

Bernd Ruf  /  Pedagogia de Emergência

25/08/2019

Psicologia e Psicoterapia Antroposófica

“Os anseios por uma Psicologia baseada em uma cosmovisão espiritual contemporânea existem hoje em inúmeras almas.
 Acredito reconhecer como elas estão sedentas por um aprofundamento da Psicologia, do grande enigma existencial da vida em relação à alma.
Como efetivamente o que é buscado com uma cosmovisão moderna, constitui hoje o impulso de inúmeras pessoas, de todos os que a consideram seriamente como algo que devemos encontrar sob forma de forças ascendentes, diante de tantas forças de decadência presentes na atualidade”                                                                                                                                                                                    Rudolf Steiner

 

A Psicologia Antroposófica nasceu de um anseio dos profissionais da área por uma imagem mais humanista, integral e transcendente do ser humano.

Inspirada pelo legado de Rudolf Steiner e seu empenho em reunificar a Ciência, a Arte e a Espiritualidade, ela está presente há mais de 80 anos na Europa e há 40 anos no Brasil.

O foco dessa abordagem, tanto na área clinica, quanto educacional e organizacional, é, para além das técnicas, um caminho evolutivo de desenvolvimento e transformação que leva em consideração a vida que se processa no equilíbrio entre o corpo físico, o âmbito emocional e o cerne espiritual da natureza humana.

A Psicoterapia Antroposófica, propriamente dita, tem no encontro terapeuta/paciente, o fundamento de sua prática. Possui como respaldo um arcabouço antroposófico com teorias da personalidade, teorias de desenvolvimento, assim como metodologias de observação.  As técnicas utilizadas, além de contar com o acervo das diversas linhas psicológicas, contam com recursos específicos e são conduzidas por psicoterapeutas comprometidos com a busca do encontro do paciente com seu próprio Ser essencial, o verdadeiro sanador da alma.

Dessa forma, cabe ao terapeuta atento e sensível às necessidades do paciente, lançar mão do instrumental mais adequado ao tratamento, que pode incluir a linguagem verbal através de perguntas e conversas significativas, abordagem corporal, grafismos, atividades artísticas, como desenhos, pinturas e modelagem, mitologia, dinâmicas interativas e expressivas, e exercícios de imaginação ativa. Ele tem consciência que através da conexão compassiva com seu paciente, pode reorientá-lo tanto na sua jornada temporal quanto na atemporal, e assim restabelecer sua dignidade humana na vida atual, e no devir da sua Individualidade perene.

O grande diferencial do tratamento psicológico, seja com crianças, jovens ou adultos, é a abrangente e profunda visão antroposófica do Ser Humano que norteia a atuação do profissional empenhado nos processos de cura.

Esta concepção de Homem e de mundo, restaura os valores mais edificantes, a saúde emocional, o sentido e o propósito da vida.

 

Eliane Utescher

Psicóloga / Psicoterapeuta

http://www.casa44.com.br

Época de João Renascer

A festa de São João fecha o primeiro semestre do ano, e é a época em que, naturalmente, revisamos as metas projetadas na virada do ano anterior e fazemos um balanço do que conseguimos realizar.

São João é o marco do que está por vir. Ao revermos nossos projetos externos e internos, ressoa fortemente na alma a voz da consciência. Tornamo-nos sensíveis aos nossos padrões de comportamentos repetitivos, aos erros reincidentes que funcionam como um freio na atuação individual que expressa mais limpidamente o nosso próprio Ser.

“Mudem seus corações e suas metas e preparem-se para a nova era”, clamava João às margens do rio Jordão. Em grego, Joanes, era um título atribuído ao ser humano que conseguia expressar seu Ser espiritual no mundo. Em suas pregações, João apelava diretamente ao senso individual do que é certo e errado presente em cada pessoa, independentemente de nacionalidade ou religião.

Muitos de nós, a esta altura do ano, sentem-se pequenos diante do que está por vir, com medo da própria sorte. Sertanejos olhando cheios de esperança o céu estrelado de junho. Elevar os olhos ao céu é um ato que, em si, é uma oração. O coração também se eleva, e na imensidão do azul que nos envolve, sentimos a presença de algo maior que nos acolhe, e nos enche de esperanças.

“Homem, torne-se o que você é”. Após ser batizado por João, o indivíduo enfrenta seu destino pessoal, como parte do destino da Humanidade. O que acontece além das fronteiras do meu cotidiano, também é minha responsabilidade, concluía, e assim, sentia-se membro de uma ordem universal.

O chamado individual nesta época de João é forte. Em relação aos compromissos, que tudo vai depender do que seremos capazes. Renascer nas pequenas ações ordinárias do dia a dia, eis a Iniciação moderna. Tão contemporânea, que na luta diária não nos damos conta do esforço que fazemos para manter a presença de espírito, e para não desviar nossa atenção procurando por grandes promessas de transformação.

Respirando fundo podemos reunir na alma forças novas. De um lado, o estresse é uma maneira de ser e lidar com as coisas. Reunimos coragem e pulamos a fogueira de São João. Do outro lado, com a força individual intensificada, renovamos a disposição para o que, ainda antes do final do ano, queremos alcançar.

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Texto de Edna Andrade, extraído da revista Nós 2009, e publicado no Boletim da Sociedade Antroposófica do Brasil

Published in: on 25/06/2018 at 7:30 p06  Deixe um comentário  

Os 3 aspectos do Ser do Cristo

O Mestre que ensina / O Médico que cura / o Consolador do Ser

Como me aproximar do espiritual? Como entrar em contato com as forças do Cristo? A presença dele na Terra impregnou o mundo. Historicamente o que temos como ponto de partida são os Evangelhos. Cristo, ele mesmo, não deixou nada escrito. Na nossa época atual, o desafio, se quisermos estabelecer uma relação com Ele,é procurar uma outra forma de conexão, porque a antiga, não se sustenta mais. Os Evangelhos podem apenas nos auxiliar de forma mais imaginativa, pois eles mesmos são contraditórios.

Segundo Rudolf Steiner, devemos ler os Evangelhos de forma inspirada. Cada um dos evangelistas quis abordar a biografia do Cristo a partir de um aspecto particular. Tem dois deles que nem foram testemunhas oculares, Lucas e Paulo. A alma humana naquele tempo era muito diferente. Ao longo do primeiro século, não havia nada escrito, a força do Cristianismo se dava através da transmissão oral. O Cristianismo não surgiu como uma doutrina. Atualmente precisamos de um grande esforço para entrar nas imagens dos Evangelhos.

R.Steiner nos dá algumas informações que nos ajudam. Ele escreveu 4 evangelhos para abordar o fenômeno de formas diferentes, cada um sob um ponto de vista, a partir de um lugar em especial. No século II/III havia muitos textos que não tinham uma unidade. O Evangelho de João é o documento por assim dizer mais elevado, grandioso, um olhar de águia para compreender o Ser do Cristo. Para Lucas, é a intensidade do ser amoroso e sacrificial do Cristo o que mais se destaca , os elementos da cura e o elemento feminino. O Evangelho de Marcos é o mais compacto e condensado, ele vai direto ao ponto, nele aparece a dimensão cósmica do Cristo, ele começa com o batismo no rio Jordão. O Evangelho de Mateus é a soma, a mistura de todos os outros, ele faz a ponte, a transição entre o antigo e o novo testamento, cita mais os profetas.

Como imagem, Mateus é o anjo, João a águia, Lucas o touro, e Marcos o leão. Podemos olhar o Evangelho através das parábolas e do processo imaginativo. Para nossa época, é fundamental que nós nos deixemos chamar pelo Cristo. Naquele tempo, Ele chamou os discípulos. Ir de encontro a um chamado, tornar-se discípulo é uma questão do Eu individual do ser humano. Cada vez mais o aceite vai depender da liberdade e da autonomia do indivíduo. É algo que só se desvela na medida em que faço um movimento nessa direção. Ir ativamente ao encontro do mistério do Cristo.

Cristo ensinava, curava e consolava o povo. O sermão da montanha é o supra sumo daquilo que Ele ensinou, a montanha é um símbolo de elevação interior, essa imagem diz muito para nós, Cristo se eleva para falar às multidões. Ele ensina porque alguém está aberto para o que Ele tem a ensinar. No sermão, depois Ele se senta e isso já nos mostra um gesto, o de estar sentado, tranqüilo, ter esse lugar para ensinar. Podemos agora então fazer o gesto de nos elevar para onde Ele está.

É importante que a mensagem do cristianismo seja ouvida pelos seus discípulos, “os discípulos o rodeavam, e então Ele começou a falar”. Ele coloca 12 discípulos à sua volta, é importante que Ele seja rodeado por diferentes maneiras de ouvir. No Evangelho de Lucas o ensinamento e a cura estão presentes. Em Lucas, Cristo fala com a multidão no terreno plano, na planície, e não do alto da montanha. Ele está cercado pelos seus discípulos. “Nem a todos é concedido entender”.

Se o ser humano quer, na modernidade, chegar a Cristo, precisa criar espaço para o logos, para a palavra, ter essa disponibilidade interior. Criar espaço não é muito simples, e em se criando espaço, alguma coisa quer sempre preencher esse lugar. Devemos criar e preencher esse espaço com aquilo para o que ele é criado, estarmos atentos para a preservação do espaço criado para que aí flua e aconteça o que queremos que aconteça. O Evangelho de João tem quatro capítulos inteiros onde Cristo fez um grande discurso em uma casa, num ambiente fechado, isolado e intimo. Ele está com seus discípulos e não mais falando com o povo, mas sim na intimidade da alma humana “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

Rudolf Steiner fala que esses capítulos deveriam ser lidos como sendo o discurso do ressuscitado aos discípulos. Viemos ao mundo para manifestar a força crística em nós, mas se não a percebermos, como a vamos manifestar?

Pastor Renato Gomes
Comunidade de Cristãos / Estância Demétria
29/03/2018

Published in: on 10/04/2018 at 7:30 p04  Deixe um comentário