O Eu e o dragão

Sabemos que a figura do dragão é um tema recorrente em várias culturas, com  significados até opostos. Assim no Ocidente é negativo: representa o mal e o mundo ameaçador ds sombras. No Oriente é positivo: é símbolo nacional da China, senhor das águas e da fertilidade. Entre os aztecas era a serpente alada (Quezalcoatl), expressão de sua identidade cultural. Não raro os pobres entre nós dizem: “para me manter, tenho que matar um dragão por dia”, pois assim o exige a dureza da vida.

Muitos antropólogos e psicólogos que trabalham sobre o tema dos arquétipos, como Carl Gustav Jung, afirmam que o dragão representa uma das figuras transculturais mais ancestrais da história humana. É a percepção de que a nossa identidade profunda, o nosso Eu, não nos é dado simplesmente pelo fato de sermos humanos. Ele tem que ser conquistado numa luta dioturna, marcada por ameaças e lutas.

Esta situação é representada pelo dragão, nosso inimigo principal. Ele quer devorar o Eu ou impedir que se liberte e faça o seu caminho de autonomia  e de liberdade. Só assim seríamos plenamente humanos.

Por isso, junto com o dragão sempre vem o cavaleiro São Jorge que com ele se confronta numa luta renhida. Qual é o significado do dragão e de São Jorge? À luz dos estudiosos referidos acima, tanto um como o outro são partes de nossa realidade humana. Cada um de nós carrega um dragão e um São Jorge dentro de si.

Isso é assim porque a nossa vida é sempre feita de luz e de sombras, do dia-bólico (aquilo que separa) e do sim-bólico (aquilo que une). Quem vai triunfar São Jorge ou o dragão? A luz ou a sombra? A nossa melhor parte ou a nossa parte pior? Ambas coexistem e sentimos a sua presença em cada momento: às vezes na forma e raiva ou de amor ou de violência ou de bondade e assim por diante.

É aqui que entra a importância de uma identidade forte, de um Eu vigoroso, um São Jorge, que possa enfrentar as nossas sombras e maldades, o dragão, e fazer triunfar nossa parte melhor.

Sabemos que o caminho da evolução leva a humanidade do inconsciente para o consciente, da fusão cósmica com o Todo para a emergência da autonomia do Eu livre e forte. Essa passagem é sempre dramática, tem que ser levada avante ao largo de toda a vida, porque os mecanismos que querem manter cativo o Eu e impedir a emergência de nossa identidade permanentemente, estão ativos. E é preciso esforço e coragem para libertar o Eu e conquistar a própria identidade e também a liberdade pessoal.

Há, contudo, um drama do qual não nos podemos furtar. Não se trata de um defeito de construção. Mas é uma marca da nossa existência no espaço e no tempo. Por mais que lutemos e vençamos, o dragão está sempre aí nos espreitando. Ele nos acompanha. Mais ainda: é uma parte de nós mesmos, de nosso lado obscuro, mesquinho, menor que nos impede de sermos plenamente humanos. Mas também somos acompanhados por São Jorge que nos assiste na luta.

Por esta razão, nas muitas lendas existentes sobre São Jorge ele não mata o dragão, mas o vence mantendo-o domesticado, amarrado e submetido aos imperativos do Eu e da identidade pessoal. Ele não pode ser negado e eliminado, apenas integrado de tal forma que perca seu lado ameaçador e destruidor. Pode até nos ajudar a sermos humildes e evitarmos a demasiada autoconfiança. Daí a vigilância e a referência a São Jorge que não só compensa a nossa falta de energia, mas nos pode valer poderosamente.

A pessoa que não renega o dragão, mas o mantém sob seu domínio consegue uma síntese feliz dos opostos presentes em sua vida. Deixa de se sentir dividido; encontrou a justa medida pois alcançou a harmonização do Eu e de sua identidade luminosa  com o dragão sombrio, o equilíbrio dinâmico do consciente com o inconsciente, da luz com a sombra,  da razão com a paixão, do racional com o simbólico, da ciência com a arte e da arte com a religião. Esta pessoa emerge como um ser humano mais rico, mais sereno, mais compreensivo, tolerante e compassivo, irradiando uma aura boa ao seu redor.

Trechos selecionados do artigo “Cada um é São Jorge, cada um é Dragão” de Leonardo Boff

Published in: on 10/05/2013 at 7:30 p05  Deixe um comentário