A Transformação do Mundo e o Auto Conhecimento em face do Mal

 

Esse é o tema mais atual e importante do século 21.

Qual a origem do Mal ?

Em literatura filosófica ou teológica, sempre se encontra o conhecimento do Mal, e desde que a humanidade começou a pensar, existe a necessidade de explicar o surgimento do Mal, mas no entanto não consta uma explicação satisfatória .

Durante muito tempo na história da humanidade, não havia a necessidade de explicar porque existia o Mal, ele simplesmente estava lá.

Na Bíblia, temos descrições do Mal, mas nenhuma explicação de onde ele veio. No primeiro capítulo do Gênesis começa a seguinte frase : “..e a serpente era a mais astuta de todos os animais que Deus criou”. Ela estava lá. Na tentação de Jesus dos 40 dias no deserto, o tentador estava lá. No apocalipse, na luta de Micael contra o dragão, este já estava no céu, não se sabe como chegou lá. Nos contos de fadas, como p.ex, o do Chapeuzinho Vermelho, o lobo já está lá no bosque.

Em muitas dessas imagens, o Mal faz parte. Em algumas mitologias, isso já se encontra diferenciado, ou seja, já existe algo ou algum lugar de onde surge o Mal. Mas a necessidade de fato de entender o Mal surge na Grécia com o pensar lógico. Na Grécia tinham muitos deuses que estão relacionados com a realidade espiritual que se encontra atrás da meteorologia : Zeus, Deus do trovão e do relâmpago. Mitologias reconheciam o Mal e o Bem como forças originais, mas não chegam até aquela ideia de que tudo tem a sua origem.

Um dos primeiros filósofos, Epicur, em 300 AC, reconheceu o problema de tentar explicar a origem do Mal. Ele se colocava questões como :”Ou Deus quer eliminar o Mal e não pode, ou Deus não quer eliminar o Mal ; se Deus quer eliminar o Mal e não pode, ele é impotente e não é Deus ; se Deus pode eliminar o Mal e não quer, ele é malvado ; se ele pode e quer, porque não o faz ?”

Esse é na realidade o problema que nós temos. Um grande problema da filosofia foi tentar explicar o campo de concentração nazista :  Como Deus permitiu isso ? Como é possível que isso tenha existido ?

Existem aproximadamente umas 7 tentativas filosóficas e teológicas para tentar explicar de onde vem o Mal.

Uma delas, que se tornou a base da teologia católica, formulada por Agostinho e aprimorada por Tomás de Aquino, é que Deus em si é completamente bom, e por isso ele permitiu o Mal. Uma imagem que não explica, mas que nos ajuda a entender este ponto de vista, está na passagem da quinta-feira santa quando o Cristo diz a Judas para ir e fazer o que tinha de ser feito. O Mal não é criado por Deus, mas ele é permitido. Na cultura cristã a ideia é de que havia surgido um Deus bom.

Culturas mais antigas tem muito mais o pensamento de que o Bem e o Mal são as duas forças originárias de todo o mundo. Luz e Trevas eram desde o início Bem e Mal.

Uma terceira tentativa de explicação seria talvez a de reconhecer que os seres que provocam o Mal são anjos caídos. No Apocalipse existe a luta de Micael contra o dragão que é jogado na Terra com seus anjos. Por que eles caíram ?

Outra visão é a de que o Mal está na essência de Deus, de Deus em si, esta qualidade está n’Ele.

Outra possibilidade de explicação é a tendência de entender o Mal como uma imperfeição da natureza. Hoje em dia, é o que mais está no sentimento das pessoas. Por exemplo, quando aconteceu recentemente o assassinato de jovens por um homem numa colônia de férias da Noruega. O assassino era doente ou não? Há a tendência de dizer que algo no corpo dele não estava correto e isso causou esse comportamento, explicando o Mal a partir de uma doença. Diametralmente oposta é a concepção da cultura judaica no antigo testamento, para quem a doença é a conseqüência de um pecado, o pecado é que provocaria uma doença.

Um sexto ponto de vista traz o ser humano como causa do Mal. O Mal não existe em si, mas só no ser humano, como diz Guimarães Rosa, que começa seu livro Grande Sertão com um moto “o diabo no meio do redemunho”. O que está no meio do redemoinho ? O silêncio, o vazio. “O diabo vige dentro do homem…”  Na natureza não se pode falar de moralidade, porque essa é uma categoria do ser humano. O leão mata a gazela porque tem fome, não porque é malvado.

Dentre estes pontos de vista que se desenvolveram a partir da possibilidade do ser humano pensar logicamente, podemos encontrar um outro na Antroposofia. Rudolf Steiner apresentou muitos pontos de vista que nos trazem imagens mais completas e complexas de como o Mal pode ter surgido. Um dos primeiros é o conceito das hierarquias superiores. Vamos tentar pensar nessa realidade de 9 hierarquias, começando do ser humano até chegar à esfera que está acima, a esfera do divino , da Trindade, às três qualidade de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.

Se tentarmos conceber a realidade espiritual das hierarquias e daquilo que está acima delas, a Trindade, temos que igualmente conceber que o Mal está nessa origem. O Mal tem um sentido, uma tarefa, ele tem que existir. No último capítulo de seu livro O Conhecimento dos Mundos Superiores, R. Steiner descreve o desenvolvimento do mundo espiritual dizendo que este havia chegado a um ponto em que não havia mais como ir para a frente, e que para isso ocorrer seria necessário que surgissem seres com determinadas qualidades : esses seres eram os seres humanos. E que qualidades seriam estas que o ser humano teria que desenvolver para possibilitar a continuidade de desenvolvimento dos seres espirituais ? Por um lado a liberdade e por outro o amor.

O nosso planeta Terra e a natureza estão repletos de sabedoria, mas não de amor. Essa é a tarefa do ser humano, desenvolver a liberdade e a partir dela, a qualidade do amor. Assim como a natureza é reflexo de sabedoria, nos tempos vindouros, em uma próxima etapa futura da Terra, a natureza deverá ser repleta de amor. Isso nos remete à possibilidade de escolha entre o Bem e o Mal. O Mal está na vontade de Deus porque é necessário para nós humanos, para que possamos desenvolver a liberdade.

Como Deus criou o mundo ? “ O espírito de Deus pairava sobre as águas”. Deus não só cria algo, ele separa. Ele separou a luz das trevas. A tendência da separação está na vontade de criação de Deus. E o que acontece quando se separa ? Pode ser que aconteça algo bom, e pode ser que não. Nós fomos separados do Paraíso e a possibilidade de reconhecer o Bem e o Mal só foi possível depois de comer da árvore do conhecimento.

A separação provoca uma consciência maior. Também pode acontecer de , com a separação, surgir uma força não ligada à vontade divina, mas sim, com uma vontade própria.

Steiner descreve como seres muito elevados assumiram a tarefa de se separarem dos outros. Na realidade, fizeram um grande sacrifício, algo que realizaram para o desenvolvimento do Universo. Esses seres espirituais tem um relacionamento meio que “religioso” uns com os outros, eles se doam uns aos outros em devoção. E o que acontece quando uma hierarquia inferior tem uma atitude de fazer uma oferta para uma hierarquia superior, e essa oferta é rejeitada ? Abel faz seu sacrifício que é aceito por Deus, Caim faz o seu e é rejeitado, surgindo então o impulso de matar o seu irmão.

A rejeição é uma fonte de grandes problemas sociais. Quando olhamos do ponto de vista do desenvolvimento, o Mal só existe porque está fora do tempo e do lugar. O correto tem que ser correto no tempo correto. O que para um jovem é completamente correto, para uma criança é errado.

É no meio do redemoinho que temos que desenvolver o nosso Eu, e nesse espaço de possibilidade ainda vazio, criar a força de tomarmos decisões a partir das emoções. É nesse espaço que pode surgir o Mal no ser humano porque do amor a si próprio em muita quantidade surge o egoísmo. Na realidade estamos sempre entre a escolha do Bem e do Mal, e a tarefa é ter equilíbrio em relação a tudo. Isso é uma chave para lidar com o Mal cotidiano.

Steiner fez uma grande escultura de madeira cuja imagem traz uma polaridade entre seres com o homem no meio deles realizando o equilíbrio de forças. No Jó do antigo testamento, Satanás conversa com Deus e consegue permissão para tentá-lo. Mas Jó não tem ainda esse adversário em si, o Mal ainda está só do lado de fora. O Fausto de Goethe não é tão puro como Jó, ele já tem em si o desejo de conhecer.

A atuação do Mal que tem muito a ver com a nossa atualidade está ligada ao desenvolvimento da genialidade com a anulação do que são as forças do amor. Na atuação do Mal a partir do século XIX temos o “dragão” atuando na Terra, e uma demarcação clara disto é o nazismo, o processo industrializado do Mal.

As tempestades para nós não são mais uma manifestação do Mal, mas sim, como nos resolvemos no íntimo de nós mesmos. Na confrontação com esta tarefa, podemos desenvolver algo superior como o Bem, o Belo, o Verdadeiro. E construir o Amor como superação do egoísmo.

 

Resumo da palestra proferida pelo Sacerdote João Torunsky

Sociedade Antroposófica no Brasil – 16/11/2016