A Cobiça e o Consumismo

Capítulo III 

A inflação é algo muito real. Colocado em termos simples, isto se reduz     ao fato de haver mais dinheiro em circulação do que os bens existentes.     O valor total do dinheiro em circulação é maior do que o dos bens oferecidos e o dinheiro então provoca uma demanda por mais bens do que os realmente existentes. Se a procura supera a oferta então, na estrutura  da nossa economia de mercado, os preços sobem ou( o que dá no mesmo) o dinheiro perde o valor.

Isto tem toda uma série de conseqüências. Uma maneira eficaz de manter os preços baixos e ainda atingir um faturamento razoável é aumentar a produção e economizar nos trabalhadores de salários altos. Pois com a elevação dos preços os salários também sobem. Ambas as medidas levam à automação. E isto significa investimentos em larga escala, que novamente necessitam de alto faturamento para conseguir o necessário retorno do capital investido. Além do mais, a automação reduz o número de empregos, assim injeções de grandes quantias de dinheiro são necessárias para criar mais empregos. Então todas estas indústrias em crescimento, aumentando seus lucros para amortizar os altos investimentos através do aumento da produção, são dependentes dos consumidores que compram bens. O impulso de compra precisa ser estimulado ao nível mais elevado possível através da propaganda convincente e tentadora.

Voltando ao consumidor que compra bens a prestação e assim usa o credito ao consumidor, o que ele está realmente fazendo ?

Economicamente ele piora a inflação. Compra algo por dinheiro que ele não tem mas espera ganhar no futuro. O dinheiro de compra realmente ainda tem que ser feito. Não há futuros bens, como no caso do produtor, equilibrando esta criação de dinheiro. Assim, de fato, o consumidor que usa crediário está contribuindo para a desvalorização do dinheiro. E quando ele diz “ Você pode usar a inflação –  assuma dívidas, elas tendem a crescer menos do que a inflação”, então o círculo está fechado. Em termos econômicos qualquer um que use o sistema de crediário ajuda a aumentar a inflação.

O que esta atitude significa psicologicamente ? Em síntese, o sistema de crediário significa que os credores institucionalizam a uma economia baseada na cobiça, na satisfação de um anseio recorrente de comprar algo. Os bancos aderem genuinamente à propaganda. “ Você deseja gozar férias dispendiosas ; há uma chance de comprar um belíssimo relógio antigo; sua mulher inesperadamente necessita um segundo carro, e assim por diante”. Não tem problema. Vá ao banco, e no dia seguinte você pode gozar suas férias, ter seu relógio e sua mulher pode guiar o segundo carro.

E então ? Então vêm as prestações – por meses, por anos. Você se fez prisioneiro desta situação. E seus sentimentos a respeito dos objetos desejados permanecem os mesmos ? Ou  você está começando a desgostar daquele relógio, você está amaldiçoando o segundo carro, a lembrança das férias dispendiosas já feneceu ? De qualquer forma, você se encontra em débito e tem que aumentar seus rendimentos. Talvez seu sindicato possa fazer algo na próxima rodada de negociações. Neste ponto nós chegamos ao outro lado da inflação – aumentos salariais.

Outra conseqüência é a transformação do papel de consumidor no de produtor, pois aquele que passa, cada vez mais a justificar seu comportamento com os argumentos deste, isto é, ele considera o crédito como um investimento que pode ser amortizado através da geração de novas receitas. Pode compensar as férias mais caras escrevendo artigos a tanto por página ; o segundo carro permite que sua mulher trabalhe fora e ganhe mais dinheiro.E o velho relógio? Bem, certamente há limites para os tipos de artigos que podem se tornar meios de produção. Mas é fácil enganar a si mesmo e descobrir mais tarde que se está sob severa pressão. Os artigos das férias têm de ser escritos –  é uma pena se não forem aceitos. Ou suponho que minha esposa não consiga o emprego, ou o perde…mas agora ela já está a costumada a ter um segundo carro.

Apenas para tornar estes efeitos mais claros, vamos ver o oposto dos crediaristas : os poupadores ( gradualmente se tornando ultrapassados).

Todo mês separam uma quantia, assim talvez em dois anos possam gozar férias mais dispendiosas, ou uma pequena reserva para uma antiguidade ocasional ou porque eles percebem que seria realmente prático possuir outro carro.

Para a economia, isto significa que produzem poupança que outros podem usar como crédito para negócios. E um poupador moderno não se preocupará apenas em ter altos juros, mas se sentirá principalmente responsável por aquilo que acontecer através de seu dinheiro ; em outras palavras, o que o seu dinheiro torna possível. Ele pode optar por receber juros menores quando ele percebe que assim fazendo seu dinheiro não será absorvido pela indústria de armas ou de agrotóxicos, mas poderá ser usado por uma pequena fábrica de brinquedos educacionais ou para produção de pigmentos à base de vegetais ou talvez para lidar com alimentos biodinâmicos.

E mais, haverá ocasiões nas quais ele poderá informar o produtor do que ele pretende comprar, as necessidades que pretende satisfazer no futuro. Desta forma está ajudando a concretizar uma nova ordem econômica, com associação entre produtor e consumidor, ao invés de produção para um mercado desconhecido, anônimo, como nos países capitalistas, ou o sistema de planejamento estatal dos paises comunistas.

Finalmente, há um outro importante aspecto psicológico.

Durante o período da poupança, um desejo pode se tornar vontade.

Há tempo suficiente para tranqüilamente pensar se realmente quer aquele segundo carro, discutir as conseqüências com amigos.Nós de fato o queremos? Nós poderíamos estar nos preparando para uma viajem dispendiosa à África, ansiosamente aguardando e acertando detalhes. Talvez, no entanto, durante o período de poupança, ela se revele mais como um capricho passageiro do que um desejo real.

E assim quando o dinheiro é finalmente gasto, no que eu o gastei é realmente meu. Eu provei de fato o que queria, e agora posso usá-lo livremente. Não há coerção para pagar em dia, apenas talvez uma continuação voluntária do hábito de poupar. Nenhuma redação forçada de artigos para reaver as despesas das férias ; antes algo escrito livremente pode ser oferecido a uma revista.

O exemplo da inflação torna particularmente claro como os fenômenos sociais e o comportamento individual estão relacionados. Lá fora, nós vemos uma vida econômica que tem cada vez mais o caráter de uma máquina, acelerada através da inflação e alimentada pelo combustível da paixão consumista. Nós mostramos que comprar à prestação agrava a inflação e torna possível comprar qualquer coisa por impulso.

Consumidores não tem a mínima consciência de que, através de uma completa mudança de seus hábitos de consumo, eles poderiam contribuir para mudanças fundamentais na ordem econômica.

 

“A Sociedade como reflexo do próprio interior”

  Lex Bos –  cap. III

Published in: on 28/08/2009 at 7:30 p08  Deixe um comentário