Arquétipo da Síntese : a reconciliação entre o masculino e o feminino

 

A união com alguém é da ordem da graça.

Na teologia judaico-cristã, um momento de confusão entre o eu e o Self é o que chamamos de Paraíso. Na queda, perdemos a inocência infantil para viver no exílio, mas o objetivo é a união, a redenção, o reencontro com a unidade na diferença.

O caminho da síntese supõe a diferença e a diferenciação. Precisamos fazer dos momentos de conflito, uma ocasião de consciência que vai nos conduzir a uma unidade onde cada um pode ser capaz de amar o outro em todos os níveis e respeitar as diferenças.

O homem é uma síntese dos 4 elementos da criação : terra, fogo, ar e água. Nós encontramos esse tema nos pré-socráticos que insistem na integração. Na idade média vemos na entrada das catedrais as imagens da águia, do leão, do touro e do homem. E é preciso perceber que todos eles tem asas, cada um está nesse caminho de elevação, a síntese e a integração dos 4 elementos no centro, é o Cristo. Esses quatro viventes que simbolizam as 4 funções do homem não vivem sempre em harmonia. Isso é a causa da guerra e da fome. No apocalipse é interessante ver que, como esses 4 viventes não estão integrados no coração do cordeiro, é o dragão que tem o poder.

Esse trabalho de integração vai inspirar Carl Jung a falar das 4 funções : sentimento, razão, intuição, sensação, e a integração dos 4, o Self. Essa visão se inspirou nos portais das igrejas. Cada uma dessas funções pode ser desenvolvida, cortar ou sobrepor as demais. Funções dominantes e funções esquecidas, sendo que estas últimas estão na origem da sombra em nós. Temos que integrar essas 4 funções no encontro com o outro, no encontro de dois Selfs. Isso pode se tornar o encontro de nossas sombras.

Em nós há sempre luz e sombra, trata-se de reconhecer isso em sua inteireza. Para o oriental, não há luz sem sombra, dia sem noite.

Outro símbolo da síntese está na tradição chinesa. A palavra Tao significa caminho, via da cabeça aos pés. Para Tereza D’Ávila, a cabeça deveria estar no céu e as raízes, profundas na Terra. No evangelho de Tomé, é preciso que o alto e o baixo se toquem. É a integração que vai nos permitir tocar a Terra e estar aberto ao Céu. No símbolo do Tao, o negro e o branco não estão misturados , no interior do branco há o preto e vice versa. Não misturar e não separar para surgir o terceiro que é o círculo que contém os dois. Há o terceiro incluso, o que faz a ligação entre os dois.  Para ser um é preciso ser três. É importante o espaço entre os dois, o espaço que une e se distingue, o terceiro que há entre o amante e o amado. Não há aliança sem os três.

Os antigos chineses falam de harmonia e da palavra “cor”. A palavra cor/cordis/coração, simboliza o movimento do centro em direção ao centro do outro. O símbolo que representa o homem é essa harmonização entre o céu e a terra, o terceiro que faz a ligação.

O símbolo da escola de Grof Durkheim também tem a ver com esse significado, um enraizamento e a abertura.

Assim, temos que restabelecer sem cessar, a relação e a harmonização entre o homem e a mulher em vários níveis. Somos constituídos por 12 corpos, 12 níveis de consciência, e cada um desses corpos pode se tornar um corpo de sofrimento. Então, como dois corpos diferentes se encontram? Quais as dimensões que são reconhecidas, e quais permanecem desconhecidas para um e para outro ?

O corpo da memória, por exemplo, tem a ver com as memórias ancestrais que nos habitam, é trans geracional, coletivo. Por vezes esse corpo está doente porque não conhecemos nossos ancestrais, às vezes não sabemos quem é nosso pai, para alguns isso é um grande sofrimento. Qual a linhagem a qual pertencemos? Precisamos nos tornar livres dessa descendência. Em nosso corpo está toda a nossa família e todos os nossos ancestrais, temos nossa herança em nosso sangue. A cura só pode vir através da aceitação. Tudo que não é aceito não é transformado. Tudo que não é assumido, não é salvo. Temos que assumir nossa herança, nosso código genético, e aceitar os ancestrais do outro. A dificuldade do encontro às vezes é entre as nossas duas famílias, entre duas educações que recebemos. O inconsciente é habitado pelos ancestrais, então é importante compartilhar isso com o outro. Os fantasmas ocupam a relação e nos impedem de nos conhecer verdadeiramente.

O corpo de apetite se relaciona à fome, sede. Nosso corpo se torna aquilo que comemos, cada um pode observar em si mesmo os seus gostos e desgostos. Existe a angustia do vazio que preenchemos com alguns alimentos, por ex. na anorexia, na obesidade, etc. Temos que conhecer o nosso próprio corpo de apetite e o do outro. Apetite tem a ver com o gosto de viver. Às vezes num casal o apetite funciona muito bem, quando estão à mesa, aí está a verdadeira felicidade; a vida pode ser difícil quando um come carne e o outro é vegetariano. Em todos os níveis pode ser que damos ao outro o que temos de melhor, mas o outro não se alimenta disso. Como respeitar o desejo e apetite do outro? Essa é, às vezes, a fonte de muitos dramas. Como harmonizar os nossos apetites? Respeitar a dieta do outro e poder viver junto. Por vezes, não compartilhar prazer, pode afastar.

O corpo de pulsões, no nível da libido, é muito intenso. É interessante saber quais são nossos animais interiores. Qual é a minha vida pulsional, não somente no nível da sexualidade, mas também da violência. Às vezes em um casal, a violência é muito destruidora; é sempre uma energia da criatividade que não é expressa através de obras criadoras. Por vezes, em uma relação de casal, é esta energia que se enfrenta, portanto é importante ter em conjunto uma obra compartilhada, quer seja a criação de uma criança, de uma casa.

O corpo da emoção: alegria, tristeza, raiva. Somos mais ou menos emotivos, por vezes nos deixamos invadir por nossas emoções, nos tornamos escravos dela, nos tornamos objetos e não mais sujeitos dessa vida emocional. Temos tendência a impor nossas emoções, mas trata-se de estar na escuta e no respeito. Porém, compartilhar emoções juntos através da lágrima ou do riso, pode harmonizar esse corpo. Às vezes não expressamos emoções e as reprimimos,  não nos expressamos direito. Introduzir a consciência nas nossas emoções não as destrói, as liberta.

O corpo das palavras. Alguns de nós falamos sem cessar, e quando não somos nós, é o rádio ou a TV, um corpo barulhento. Para outros casais, a falta de palavras é uma dificuldade. Temos que colocar palavras na vida interior, porque a palavra é sagrada. Enquanto o casal consegue conversar, a vida é possível; quando não se pode mais falar, quando não se tem mais palavras para dizer ao outro o que tem de ser dito, mesmo que difícil, a vida do casal empobrece. É muito difícil dizer a verdade ao outro, é preciso amar muito. Ser capaz de dizer não te amo mais. Mas talvez existam outras formas de amor a descobrir no outro, um outro nível de amor mais profundo.Se somos capazes de conversar, de dizer a verdade ao outro e não temer a verdade que há em nós e no outro, acontece uma harmonização. Não há como viver na mentira, isso é uma forma de esquizofrenia.

O corpo de pensamentos. Normalmente nossa fala expressa nossos pensamentos. A mentira não expressa os pensamentos. Às vezes há uma grande distância entre o que pensamos e o que somos. O “sou quem sou “ se expressa através do pensamento, este se expressa através da palavra e esta se expressa através da ação. Mas às vezes não estamos nesse nível de transparência. Quando dois corpos de pensamento se encontram, podemos sentir os pensamentos um do outro. Às vezes isso não acontece, e os não ditos podem destruir o casal. Pensamento é energia e o silencio da não comunicação, é um silêncio de morte. Quando não se pensa mais na mesma direção que o outro, surge a questão: “o que você está pensando? sinto que você pensa em outra pessoa”. Às vezes dormimos no mesmo leito e não dormimos no mesmo sonho. São corpos de sofrimento que se enfrentam e que não tiveram tempo de esclarecer seus pensamentos. A comunhão de pensamentos em um casal traz muita harmonia, o mesmo cumprimento de ondas.

O corpo de desejo se trata de uma orientação que quero dar à minha existência, aquilo que realmente quero e faço todo o necessário para que essa vontade se realize. Alguns casais se separam neste nível, porque as vidas tomam direções diferentes. Um tem desejo de sucesso social e financeiro, mais o outro quer um sucesso mais afetivo e interior, ser bom e feliz. Às vezes não há mais um projeto ou futuro comum. Se sou fiel ao meu desejo profundo, ele pode ser incompatível com o desejo do outro. Então é necessário ter o amor e a coragem para se separar porque não dá para dois estranhos viverem juntos.

O corpo do sentimento. Será que meu corpo tem um coração? O meu caminho tem um coração? O que pratico tem um coração? Na relação com o outro, o coração está mesmo presente? Será que temos o desejo do bem do outro, que não necessariamente é a mesma felicidade que a minha? É no contato com o outro que tem um coração, que tocamos o divino que habita em nós.

O corpo dos sonhos são imagens arquetípicas, sons e imagens que nos habitam. Será que é só a imagem do outro que eu amo, ou o é outro em si mesmo?

O corpo de louvor. Há graça e poder no louvor. O fato de fazer isso junto com o outro pode ser uma fonte de união profunda.

O corpo de luz. Podemos ver a luz que está entre nós e a luz que está no interior de nós. Duas pessoas às vezes podem se encontrar nessa luz, são os corpos de luz que se envolvem.

O corpo do silêncio. Às vezes somos sensíveis a essa profunda presença do outro. O silêncio além de todas as palavras.

Assim como há 12 discípulos de Cristo, esses 12 corpos são discípulos do “Eu Sou”. O encontro com o “Eu Sou” do outro se dá no presente. O corpo do outro é, por vezes, um país no qual nunca chegamos. Quantos corpos se encontram na relação de um casal? Acredito que ninguém consegue se encontrar em todos os níveis. Mas podemos desenvolver um encontro mais rico e profundo nos corpos que não se encontram.

Há um texto da tradição grega, de Platão, que se refere à busca do outro como sendo a metade faltante; esse texto influenciou muitos pensadores e a nós mesmos. Será que estamos buscando a outra metade ou verdadeiramente um outro ? No banquete, na fala de Aristófanes, ele se refere a Eros como um tipo de amor que precisa preencher a falta. Nesse mito, o outro nunca é amado por si mesmo. Faço uso do outro para alcançar a minha plenitude. Amo no outro o meu próprio reflexo que se parece comigo – isso é narcisismo.

Há um texto no Gênese onde a diferença entre homem e mulher é a própria imagem de Deus. “No início nasceu a luz, o não manifesto se manifesta. Nada existe por si, tudo é ligado e interligado. O que conhecemos da vida são as manifestações, mas a vida em si mesma não conhecemos, ela se mantém escondida. O semblante do outro mostra o invisível. Os Eloim, energias criadoras, fazem existir todas as coisas, é como um sopro sobre o caos. O dia e a noite, a terra e a água, como um processo de separação, de diferenciação. Macho e fêmea criados por Eloim. A imagem de Deus como a relação entre ambos, não é o homem nem a mulher, é a relação. No evangelho, aquele que ama permanece em Deus e Deus permanece nele. Nessa visão, a diferenciação sexual é percebida como positiva, é através dela que a vida se comunica. Não é bom que o ser humano permaneça só. Ele só pode ser feliz se tiver uma relação com o outro, aí ele se torna inteiro, dois seres inteiros, duas autonomias. Para Reiner M.Rilke, o amor que nós buscamos é o encontro de dois sujeitos que se inclinam um ao outro para que cada um chegue à sua plenitude. Não existe a necessidade do outro, é um amor mais maduro. A tradição hebraica é diferente da tradição grega.

Há um texto que pertence ao Novo Testamento que diz que, quando estamos no arquétipo do Cristo, não há mais macho nem fêmea. Como se vive o encontro a partir desse pressuposto? Na carta aos Gálatos diz que, quando entramos no arquétipo divino, não há nem judeu nem grego, não há mais escravo nem homem livre, não há macho nem fêmea. Nos tornamos um na consciência do Cristo presente. Há que ultrapassar a diferenciação sexual, somos pessoas inteiras, cada um é um ser humano pleno. São relações de pessoas, somos iguais em dignidade. Em cada homem e em cada mulher a essência divina, a presença da divindade em cada um. Há que reconhecer a presença do Ser no outro porque, antes de tudo, reconheci em mim mesmo. No casamento na antiga tradição cristã, cada um coroava o outro. Há dois senhores, um príncipe e uma princesa. Nesse texto somos chamados a nos respeitar mutuamente.

Três grandes tradições, a grega, a hebraica, e a cristã, que talvez sejam 3 etapas da nossa existência.

No Evangelho de Felipe a presença de Deus se revela no encontro íntimo do homem e da mulher, no leito nupcial.

Em todos os corpos podem aparecer parasitas, mas o corpo do Bem Aventurado habita em nós e pode neutralizar essa contaminação. É a beatitude do Eu Sou que pode ser vivida em todos os níveis do nosso ser e compartilhada com o outro.

Os antigos chamavam o Bem Aventurado de arquétipo da síntese, o que faz a ligação entre o humano e o divino, a matéria e o espírito. Na tradição cristã o Bem Aventurado é o Cristo, e nas tradições antigas ele está representado entre João Batista e Maria Madalena. João Batista é o asceta, o homem do deserto, da justiça,  e Maria Madalena é mais a dimensão da beleza, da generosidade. A pessoa de Jesus vai integrar essas qualidades do masculino e do feminino. Integração da justiça e da misericórdia. Isso é representado nos ícones, é a maneira de representar o semblante de Cristo.

O encontro é o encontro de dois diferentes e no ser inteiro há o masculino e o feminino. Quando estamos em estado de meditação, estamos além da forma. Aí é o Eu Sou. O bem e o mal não são separados, assim como não são o dia e a noite. A realidade quântica é ao mesmo tempo onda e partícula. O arquétipo da síntese contém os contrários.

Cristo é a síntese entre Deus e o ser humano. A noção de Deus é uma noção humana. Não há Deus sem um ser humano que testemunhe essa realidade. E um homem sem Deus não tem profundidade. Não há homem sem Deus e Deus sem homem. Cada um de nós é o visível no invisível. O esforço e a graça andam juntos. O arquétipo da síntese está em nós, assim com a capacidade de integração: Pai/Filho/Espírito Santo.

 

 

Jean Yves Leloup

Workshop de Psicologia Transpessoal – Alubrat

25 e 26 de março de 2017

 

A vontade de curar e o Impulso Crístico

 

No Congresso de Natal de 1924 Rudolf Steiner proferiu a seguinte frase :  “ Que as pessoas se tornem aquilo que fortifica o mundo”. Todos nós temos uma tarefa sanante que cura algo no mundo. No evangelho, os discípulos foram enviados para sanar o mundo. Steiner disse que o impulso crístico da atualidade se mostra na atividade de cura.

O que a proposta de sanar tem a ver com o Cristo ? Steiner falou muitas vezes sobre a força de vontade e a coragem de curar. Quando ele falava sobre Ita Wegman, ele dizia que ela tinha essa coragem. Gostaria então de abordar nesta palestra de hoje, as qualidades de alma que Ita Wegman possuía e que todo ser humano da atualidade também possui.

Em relação ao pensar, o curar tem algo a ver com o reconhecer. Se quisermos ajudar alguém, temos de entender o que lhe falta. Nós vemos o sofrimento de uma pessoa, mas só ver não significa a solução para resolver esse problema. É uma tarefa de compreensão entender a partir do que e de onde vem o sofrimento do outro, assim como a ajuda para tirar esse sofrimento. Sabemos que hoje não são apenas seres humanos que sofrem, mas sim toda a Terra.

A consciência desse sofrimento existe em muitas pessoas, mas muitos não têm o diagnóstico nem a terapia corretos. Se realmente queremos ajudar para a solução do sofrimento, temos que trabalhar intensamente no âmbito da compreensão. O termo diagnose (do grego) significa que se olhe através da doença para a terapia.

Quando perguntamos a alguém “o que lhe falta ?”, pode ser que seja o sentido da vida, um amigo,ou o processo de ferro no sangue; quando se pergunta isso, não é uma questão de perguntar o que o faz sofrer, mas sim, do que ele tem necessidade. O que temos que aprender não é somente ver a necessidade, mas o que a origina e como podemos prover essa necessidade.

É uma questão de coragem olhar o que está além do aparente para chegar ao cerne do problema. É muito simples dar sonífero a quem não consegue dormir. Pesquisar o motivo da insônia já exige mais trabalho. E trabalhar com o paciente no problema que causa a insônia, exige outro empenho.   É uma questão de coragem, de força de vontade. Porque adentramos uma situação difícil, não se tem a resposta imediatamente, pois o sintoma não é o problema em si.

Tenho que fazer uso do meu Eu que quer reconhecer algo do problema.    Nos âmbitos social e político, a explicação para tudo é muito rápida, só se corrigem os sintomas. Mas se queremos passar além disto, faz-se necessário adquirir uma força de vontade que quer abarcar e saber. Isso é um princípio Crístico primordial: fazer juízo próprio e uso da própria razão. Para Emanuel Kant “o conhecimento é o início para o ser humano poder sair da sua dependência auto-inflingida”. Se nós queremos curar, temos que dar conta da tarefa de esclarecermos as coisas.

Antroposofia é uma ciência do conhecimento. Ela não é primariamente algo que concerne ao sentimento, mas sim ao pensar. Não é apenas pensar, mas ela começa com o pensar e com a atividade do Eu dentro do pensar. Eu desconfio daquilo que vem a mim como julgamento alheio, eu próprio quero formar meu julgamento.

Ita Wegman antes de ser médica era fisioterapeuta e trabalhava com massagem, mas cada vez mais se sentia frustrada porque tinha que executar o que os médicos indicavam para os pacientes, não lhe era permitido formar o próprio diagnóstico nem a terapia. Ela queria assumir a responsabilidade pelo que fazia, mas só podemos assumir responsabilidade pelo que reconhecemos e entendemos por nós mesmos.

A Medicina Antroposófica começou como um novo caminho cognitivo. A Pedagogia Antroposófica também começou com esse mesmo caminho. Na pedagogia temos a tarefa de saber, por exemplo, o que leva a criança a ser muito agitada. A Agricultura Antroposófica também tem esse impulso, onde tentamos entender o que leva a planta a criar uma doença, e não só utilizarmos produtos químicos.

Assim vemos que em todos os âmbitos, se queremos atuar de forma sanante, precisamos de um profundo julgamento, e a Antroposofia é um impulso de coragem para formar seus próprios julgamentos. A atuação crística do século XX se apresenta em pessoas individuais que adquiriram a capacidade de criar uma atividade própria no pensar em vários âmbitos da cultura. Pessoas que usaram um pensar diferente da corrente comum para procurar a verdade. É uma questão de coragem ser contrário ao que a massa pensa ou comunga. Quantas vezes assumimos os julgamentos alheios sem passar por um pensar próprio? A vontade de curar tem a ver com coragem.

Mas situações humanas não apelam apenas ao pensar, mas também ao nosso sentir. Segundo R.Steiner “ se nós sentirmos o ar que nos circunda, ele tem oculto em si a coragem”. Todos nós sabemos que pessoas que tem medo, também têm problemas respiratórios. Se prestarmos atenção profundamente, perceberemos que é nesse âmbito que abarcamos o mundo para dentro de nós e nos expandimos no mundo. No âmbito da organização rítmica da respiração, estamos abertos. Todos nós inspiramos e expiramos o mesmo ar.

Percebemos que neste âmbito do sentir comungamos com o entorno. É uma questão de coragem se permitimos essa aproximação do outro, ou se nos afastamos. A inspiração pressupõe uma confiança no mundo, um gesto de simpatia, e a expiração é algo do qual me distancio. Quando temos uma situação difícil tendemos a não querer inspirar, pois trazemos para dentro de nós o problema.

Ita Wegman tinha esse ímpeto de ir até a pessoa doente. Ela queria que a situação do paciente se aproximasse para bem perto de si. Há que se ter coragem para inspirar o sofrimento e a necessidade do outro. Sabemos que Francisco de Assis se dirigia aos leprosos e não se contaminava, ele adentrava essa miséria.

R.Steiner dizia : “ não amem somente os doentes, mas aprendam a amar as doenças”. Geralmente temos uma relação muito negativa para com as doenças, mas também para com os problemas sociais, as guerras, para tudo o que é negativo no nosso mundo. O convite para “amar” uma psicose ou uma leucemia soa tão absurdo como se tivéssemos que amar as drogas ou a guerra, pois é obvio que são características que tem a ver com o mal, e o queremos manter bem distante. Podemos perceber que quando nos distanciamos do mal, ele não desaparece, mas procura outro endereço.

O mundo inteiro está hoje repleto de pessoas que estão fugindo, são 60 milhões de refugiados. Os países fecham suas portas, mas o problema não se resolve. É óbvio que os refugiados não são o mal, mas do que eles estão fugindo é muita maldade e teríamos que nos haver com isso.

O impulso crístico tem a ver que se permita que aquilo que é escuro e mal se aproxime de mim na esfera do sentir. Cristo acolheu Judas em seu circulo de discípulos. Exige uma certa coragem admitir o mal nesta esfera e inspirá-lo.

Ita Wegman tinha uma força cognitiva médica inspiradora. Isso inclui a inspiração. Ela era uma médica que procurava o encontro com o paciente, com a doença. Isso não quer dizer se tornar doente também, mas sim, deixar a doença se aproximar tanto afim de que o impulso da terapia desperte e possa ser aplicado. Ela, em silêncio, deixava-se permear pelo paciente, e aí surgia a resposta. Muitos impulsos terapêuticos novos surgiram da convivência com o doente e a doença, e não com a distância.  Na aproximação pode surgir uma intuição da terapia. Essa força do amor que se une ao mal possibilita uma transformação. Se quisermos realizar esse impulso de cura no âmbito do sentir, temos que permitir que a maldade do mundo chegue a nós.

Como se dá essa coragem no âmbito do querer? Esse âmbito é a vida e a morte. No pensar, luz e trevas, no sentir, calor e frio, e no querer sempre se dá a luta entre vida e morte. Sabemos na medicina que a morte está sempre presente nas doenças graves. Mas também nas nossas atividades sociais, sempre há a possibilidade de destruição, do fim, e com isso acoplado vem essa tonalidade da alma que tem a ver com a falta de esperança.

O que nos é colocado neste âmbito como tarefa é que conquistemos a confiança. Na Grécia havia uma indicação de que os médicos não deviam tratar os pacientes desenganados. Provavelmente isso lesaria a reputação do médico. O grego tinha uma relação problemática com a morte – ela era o fim da vida, um nada. Para R.Steiner os médicos deviam se digladiar com a morte, se confrontar com a morte. A tarefa do médico é ajudar para a vida, eles devem fortalecer as forças vitais do paciente, e não formar prognósticos à respeito da morte, pois senão o paciente morre. O terapeuta não deve abrir mão da vida, deve manter a esperança.

Hoje em dia na Terra podemos prognosticar a morte em vários âmbitos: social, ecológico, econômico. Muitos jovens que se retraem para a vida particular já abriram mão de atuar no social ou na política, como faziam os jovens de 20 anos atrás. Muitos deles não têm mais esperança de que possa vir a superação de uma situação que atualmente se apresenta no mundo.

Ita Wegman tinha essa força incrível na superação do indivíduo, tinha uma fé que movia montanhas. Ela tinha essa fé não só em respeito às doenças, mas em situações difíceis da vida dos pacientes, força de vontade para procurar uma solução junto com o paciente. R.Steiner dizia que os médicos teriam que desenvolver força de vontade para o carma, para o destino. Assim que, se como médico me empenho para transformar uma situação do paciente, me ligo ao seu destino e a situação se torna um pouco minha também. Não é suficiente dar um bom conselho, o paciente tem que sentir que o médico está de forma existencial lutando e buscando uma solução.

O impulso crístico é, nesse sentido, a disposição de entrar com responsabilidade numa tal situação ; quando nos unimos a ela não somos mais só espectadores, mas nos tornamos parte dela. Na atualidade, esse impulso no âmbito social tem a ver com que atuemos com o nosso querer de tal modo que nos tornemos parte dele e assumamos responsabilidade por ele. Muitas vezes não queremos nos comprometer, entrar numa situação difícil. Mas seria sim nossa tarefa nos envolvermos com o que sabemos ser um descaminho. Faz parte sanar o que é difícil.

Ita Wegman possuía a capacidade de sacudir os pacientes para lembrá-los dos propósitos de suas vidas. Trata-se da questão onde, com o meu Eu, entro no querer. Temos que olhar para esses 3 âmbitos, pensar/sentir/querer, e o Eu nessas forças. Sua clinica era um espaço onde o impulso crístico vivia na comunidade como um todo. Pessoas que desenvolvem essa vontade crística necessitam uma comunidade ao redor que também queira fazer isso dessa maneira. Muita alegria, muita leveza e calor viviam na clinica em Arlesheim, na Suíça. Um ambiente de cura precisa dessa leveza, de humor, de cores e alegria para não se tornar algo estático, estarrecido. Apesar de todas as dificuldades que encontramos no mundo atual, encontramos também esses impulsos.

O Espírito de Cristo sopra onde ele quer.

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Palestra proferida por Peter Selg

Sociedade Antroposófica do Brasil

22 /03/ 2017

Published in: on 04/04/2017 at 7:30 p04  Deixe um comentário