Meditação na aquisição do Conhecimento

 

 Os objetos do cotidiano tem seu próprio mistério. Normalmente quando ouvimos escrituras sagradas , elas saem da boca dos sacerdotes. Mas na Ásia há uma lenda que conta que no começo da criação havia um ninho com dois ovos ; de  um deles saiu um xamã, e do outro saiu um ferreiro.

Como Caim e Abel, estes “dois ovos”, são aspectos que pertencem a nós mesmos, temos essas duas características dentro de nós, nossa herança vem tanto do céu quanto da terra. Os mistérios do céu estão em paralelo com os da terra, e todas as culturas têm essas estórias. Por exemplo, na mitologia grega um dos deuses do Olimpo foi rejeitado, desceu para a Terra e se dirigiu para a ilha vulcânica de Lemnos – ele era manco. Todos nós, de uma certa forma, vivenciamos essa queda e somos um pouco mancos. O então deus caído, Hefestus, tinha habilidade com as mãos para trabalhar com o fogo. Dessa forma, temos um deus feio e manco que depois se casa com Afrodite, a mais linda de todas as deusas, a deusa do amor e da beleza.

Na África, se alguém quer casar, vai ao xamã, mas se ele está fora da aldeia, vai-se para o ferreiro.

Temos assim duas tradições sagradas, a do sacerdote e a do ferreiro. E é essa a imagem quando pensamos no Cristo. Quem era seu pai ?     Um carpinteiro. Imaginem a sua infância fazendo objetos a partir da terra, como Hefestus.

Quando ouço as palavras da frase :  A redenção do ser humano é pelo sacrifício do Cristo, o novo Adão que redime o pecado de Adão e Eva – também lembro do assassinato de um irmão pelo outro, também acho que esse fraticídio é redimido.

A corrente do ferreiro e do sacerdote convergem no Cristo. Quando olhamos a tecnologia e os objetos cotidianos, deveríamos lembrar dessa herança. Por milhares de anos as estórias envolveram a técnica, portanto não há nada no mundo que não seja sagrado, mesmo esse microfone por onde falo.

Quando temos a imagem da tecnologia que se move do mal para o bem, e que também se move do que é secular para o sagrado, penso que a meditação é justamente a ferramenta que permite que nos tornemos mais despertos para o dia a dia.

Será que podemos nos tornar mais despertos ? Gostaria de tratar dessa questão não em termos de conhecimento, mas em relação à espiritualidade.  Como vivo a minha vida ? O que nos guia ?

Quando nos tornamos conscientes de todas as vozes que impulsionam nossa vida – os hormônios, os pais, a sociedade,etc.. –  ficamos um pouco mais livre delas. Despertos, podemos ir colocando essas vozes gradualmente mais distantes. E daí a pergunta : o que nos guiará se não houver nenhum impulso que vem de fora ou de dentro de nós ? A possibilidade de sermos livres existe quando conseguimos isso.

Estamos em um ponto critico no mundo. As fontes da vida moral, religiosa, estão diminuindo. A nova moralidade ainda é uma fonte fraca, e a meditação é uma importante atividade para encontrarmos novas fontes.

Rudolf Steiner disse que quando mergulharmos nas profundezas da meditação, poderemos encontrar tanto aquilo que leva ao florescimento interior do ser humano, quanto aquilo que leva à sua diminuição .

Como nos tornamos mais humanos ? Quais as práticas e os meios com que podemos contar para fortalecer essa nova dimensão ?

Gostaria de fazer uma distinção entre 3 sentimentos : pena, empatia e compaixão. A maioria de nós não gostaria de ser objeto de pena, porque isso é uma espécie de condescendência de cima para baixo. Empatia é um pouco melhor, a gente se sente no lugar do outro, mas isso também não é muito confortável. Pela empatia temos o fenômeno da exaustão por sentir o sentimento do outro. Os neurocientistas alemães vem estudando o fenômeno que expressa esse sofrimento. Já a compaixão é bem diferente, ela leva à ação, ou pelo menos ao impulso para diminuir o sofrimento porque existem outros circuitos no cérebro que são ativados, os sentimentos são positivos e dão a sensação da capacidade de ajudar.

Há que se distinguir entre o que é e o que não é compaixão. Ajudar os necessitados é uma capacidade tão bonita no ser humano. De onde ela vem ? Como se relaciona com o bem ? Tentar encontrar o que poderia ajudar o outro é genuinamente saudável, pois é necessário que o bem floresça não só na minha vida, mas na vida de todos. Isso significa mover-se na direção do sofrimento e não desviar dele.

São Francisco de Assis e Shantideva são muito parecidos nas suas orações, tanto no ocidente quanto na ásia , ambos falam de amor.

Quando R.Steiner fundou a primeira escola Waldorf, ele formulou a seguinte questão sobre educação : “ Como uma criança é educada para que se torne um ser humano verdadeiro , afim de que possa dar conta de toda a sua individualidade dentro de si, e ao mesmo tempo, expressar o seu inteiro ser na conduta ética e religiosa da vida ?

Não seria essa uma questão para a educação de qualquer criança em qualquer escola, e não só para a educação nas escolas Waldorf ?

Cada criança vem ao mundo com a inclinação para a generosidade, para a gentileza, e mesmo a ciência está começando a reconhecer que isso é um fato. Como é que nós adultos esquecemos isso ? Como podemos fortalecer essas capacidades ? Como fazemos isso em cada escola, em cada lugar do mundo ? O que vocês fariam ? Onde começariam ?

Steiner diz que quando ultrapassamos o limiar (da morte), a questão do bem e do mal desaparecem e o que se torna importante é aquilo que gera saúde. Na estória do Parsifal , temos a pergunta sanadora que quebra todas as convenções do bom comportamento.

No famoso discurso de Martin Luther King, também vemos este aspecto.

Necessitamos não apenas de nos comportarmos bem, mas de amarmos uns aos outros, temos que ir na direção do sofrimento mesmo quebrando as convenções e regras, temos que fazer isso a partir da compaixão e do amor pelos outros.

Quando estamos no ponto de completa liberdade, o que nos orienta em direção ao bem ? Talvez a atitude que Parsifal tomou no final do seu caminho – desobedecer as regras e obedecer à sua própria compaixão.

Como podemos ampliar esta atitude do Parsifal ? Em primeiro lugar a pessoas muito ligadas a nós, nossa família, e aos poucos estender isso um pouco além, na direção das pessoas não tão intimas, e depois a uma pessoa completamente estranha, talvez para alguém que cruzamos na rua e com quem poderíamos exercitar interiormente a pergunta : O que o faz sofrer, como posso ajudá-lo ?

O que aconteceria se mais pessoas se colocassem essas perguntas ?  O que aconteceria no mundo, uns com os outros, se todos carregássemos essas perguntas de amor e compaixão em nós ?

Essa atividade , que é meditativa, gera saúde e florescimento dentro de nós.

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Palestra proferida por Arthur Zajonc no II Fórum de Meditação realizado na Sociedade Antroposofica em 31 de agosto de 2013.

Published in: on 06/09/2013 at 7:30 p09  Deixe um comentário  

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