Drogas e Adicções

Uma temática importante para a contemporaneidade são as adicções. Esse é um problema transversal. Na Psicoterapia Antroposófica falamos de um eu inferior (Ego) e um eu superior (Self), ou o verdadeiro Eu. As adicções são uma espécie de placebo do Eu. Tem um livro chamado “ In place of the self” (“No lugar do Eu”), de Roxi Dunselman, que faz uma descrição interessante sobre o significado das diferentes drogas.

A estrutura humana tem o corpo físico, a organização vital, a organização anímica e a organização do Eu.

No corpo físico a substância típica que atua é o Álcool, que produz um levantamento das forças metabólicas, cresce a violência, o apetite sexual.

Na organização vital, a substância típica que atua é a Maconha, que produz alegria, sensação interna de vínculo, conexão.

Na organização anímica, a substância típica que atua, na expiração são : LSD, Daime, Mescalina, drogas excarnatórias, alucinatórias ; na inspiração, a Cocaína.

Na organização Espiritual (do Eu), a substância típica que atua é a Heroina, que produz calor, adicção à outra pessoa, ou à uma seita, ao consumismo.

Antigamente falava-se nas metáforas das drogas. Cada uma podia substituir alguma função do Eu, de uma que o indivíduo não fosse capaz.Felizmente as drogas não podem substituir o Eu mesmo, porque ele é muito desconhecido e traz muitas surpresas. Por exemplo, hoje muitos jovens tem adicção de xarope para tosse, que tem muitos derivados de ópio. Temos muitas drogas sintéticas, as “E drugs”, são musicas que geram o mesmo nível bioquímico que cerats drogas. Os pais ficam felizes que os filhos estão escutando musica em vez de se drogarem, mas eles estão se drogando a um custo muito baixo. Musica tecno foi originada na Alemanha para produzir uma motivação imperiosa de consumo de heroína. Hoje, 20 anos depois, temos os “E drugs”.

Mas temos muitas outras adicções : os shoppings, os jogos virtuais, os caça moedas nas pessoas mais antigas, a auto mutilação, os jovens se cortam, se ferem. O processo de adicção á muito global e complexo e, sem dúvida, a adicção mais forte hoje no mundo são os calmantes.

Há 10 anos atrás os publicitários achavam muito fashion o tema de consumir drogas para despertar a criatividade. O ego humano pensa sempre que tem a criatividade máxima ; Steiner fala que o ego humano é devastador porque coloca a si  mesmo na luz e as outras pessoas na escuridão. As pessoas adictas não tem lembranças precisas, perdem a conexão com sua própria biografia e com a realidade da vida.

A origem fundamental da adicção tem a ver com a vontade imperiosa de adormecer a dor – por causa da solidão, pelo sem sentido da vida, pela falta de futuro, pelas contradições da vida. Temos uma origem cristã judaica baseada no pecado, sempre procuramos culpados, e, neste momento da consciência humana, temos a necessidade de transformar o peso da culpa porque ela também gera dor.

Para falar dos processos de adicção temos que ter claro a noção da substituição de algumas funções do Eu, da ansiedade e do adormecimento da dor – essas duas ideias são fundamentais. Temos que descobrir nos adictos,quais as qualidades que precisam ser substituídas e quais as dores que querem ser adormecidas.

Nas seitas, existe o aspecto sombrio do dogmatismo, onde a pessoa entrega a responsabilidade de si mesmo à uma organização. Felicity Vogt , uma terapeuta alemã , falou muito frequentemente sobre as substituições que as adicções fazem dos aspectos específicos do Eu. Ela e Joop Van Dann , médico holandês,fizeram um grande movimento sobre as drogas.

Sobre as metáforas das drogas : o que se compra quando se compra uma droga ?  De uma certa forma, todos temos adicções. Qual o limite entre o que é e o que não é adicção ? A adicção se apresenta quando a pessoa não pode estar ou ficar sem a substância ou atividade ; quando a pessoa entra em estado de pânico e fica violenta sem o objeto da adicção, é uma adicta.

As drogas excarnatórias relativas á organização anímica, provocam o contato com seres existentes não físicos, o que para a psiquiatria clássica são as alucinações.  As portas da percepção se abrem. Com a cocaína, tem uma hiperpercepção dos processos físicos, terrenos, e uma ação muito rápida, tem uma coisa muito forte de sedução.

No consumo de heroína, a pessoa tem a experiência da totalidade.

Quando a pessoa se alcooliza, está comprando a possibilidade de se sentir mais segura de si mesmo, tem sensação de empoderamento, compra a possibilidade de ultrapassar os limites da timidez, compra a intimidade, mas ocorre que costuma destruir essas mesmas relações que quis inicialmente conquistar. Com o álcool, a pessoa volta a sentir o paraíso perdido.

Com a maconha, compra-se o social, a fluência na vida entre as pessoas, a alegria, o encontro humano, a possibilidade de religar com o outro, com a natureza, com as forças constitutivas do seu humano e do mundo. O mundo atualmente tão materialista, leva os jovens a precisarem de maconha. A atualidade, a sociedade atual está fármaco patológica.

O calor da sedução é frio, não é o calor do Eu. As drogas alucinatórias compram a relação com os mundos suprasensíveis, isso gera um poder muito egocêntrico, principalmente as drogas da organização anímica, astral. Compramos superioridade e discriminação.

Com a heroína, compramos a volta à origem espiritual, não física, “eu não preciso de ninguém”. O nível de dissociação que provoca as drogas é muito forte e sempre atua na saúde mental.

Infelizmente as sensações que tem a ver com as drogas acontecem no primeiro nível de contato com o corpo humano, porque com a saturação, a pessoa começa a consumir cada vez mais para sentir o impacto inicial. Isso vai impedindo a pessoa de se apropriar do seu Eu que é expulso, e aí acontece a desestrutura psíquica. As drogas produzem estados pseudo psiquiátricos, mas com o tempo e o consumo, o pseudo pode se tornar crônico.

Assim primeiramente as drogas simulam a atividade do Eu, e quando este fica debilitado, se desenvolvem as enfermidades mentais.

Os consumidores de crack muito jovens, ainda no primeiro setênio, são os novos “handicaps” da nossa sociedade, eles não nasceram assim. As substâncias condenam as crianças à uma expectativa de vida muito curta. Acredito que a pedagogia curativa tenha agora que se dirigir a essas crianças.

A determinação do consumidor para sair desse quadro tem a ver diretamente com o encontro humano. Em geral se começa com maconha ou com álcool, e como não conseguem encontrar o que foram procurar, diversificam a droga.    Isso gera sensação de fracasso na busca de substituir o que se foi buscar.

O crack gera situações irreversíveis, com 5 anos de uso, as pessoas ficam cronicamente comprometidas, não conseguem mais refletir, o pensamento se torna totalmente concreto, não conseguem mais abstrair.

Hoje se misturam muitas drogas. Dessa forma, a busca do sentido original da vida se transforma na busca total de perda de consciência.

Vivemos numa cultura egocêntrica, não numa cultura do Eu. As pesquisas já mostram que nos usuários do facebook se encontra um nível elevado de narcisismo, que é uma das dissociações mais fortes que atacam a organização do Eu.

O nível mais profundo de prevenção das adiccções pode ser feito no primeiro setênio da vida ; uma criança precisa ter calor, aconchego, sensação de segurança no ambiente familiar, ser bem tocada, sentir a proteção do mundo, ter a experiência que o mundo é bom. A prevenção começa sempre pelos adultos.   Estamos nós determinados a nos transformarmos ? A cultivar a intimidade nas relações humanas ? A que tipo de cultura queremos pertencer ? Queremos ser pessoas que reconhecem o outro como iguais a nós no nível humano ?

A cultura do ego conduz ou à adicção, ou ao desenvolvimento do Eu, e nós estamos num limite humano, temos que começar a tomar decisões muito importantes.

Queremos ser psicólogos de que natureza ? Espero que, daqueles que sabem desenvolver as forças do coração, que estão no caminho, não que são superiores.  Podemos ser existencialistas transcendentes, reconhecer nossa origem espiritual aqui na Terra.

Como pesquisadora do humano, penso que humano é algo que nos traz o futuro. Temos que revitalizar saudavelmente nossa profissão, temos a missão de vincular a pessoa cuja catástrofe foi produzida na alma. Reconectar a pessoa com sua própria perspectiva de futuro. Nos apaixonarmos pela relação humana e por toda a complexidade que isto encerra.

Antroposofia é uma corrente complexa, mas nós temos a tarefa espiritual de abrir nosso coração para a dor do outro e gerar ações terapêuticas para que essa pessoa possa fortalecer a organização do Eu nas relações humanas.

O tratamento das adicções tem que ser conduzido em equipe e não só com psicoterapia. Temos que deter a adicção, temos que interromper o uso e criar a crise de abstinência. Temos que provocar um primeiro setênio artificial novo que tenha uma duração mínima de 7 semanas e máxima de 12 semanas. Temos que providenciar as forças constitutivas do primeiro setênio – calor, aconchego e reconstituir a confiança quebrada. Os severos traumas quase sempre tem a ver com essa infância.

Nesse momento a psicoterapia só pode ser de suporte, apoio, motivação. A pessoa está colapsada pela ansiedade do consumo. Nesse momento necessitamos muito da medicina antroposófica que é maravilhosa para a crise de abstinência. A segunda fase é de desenvolvimento das forças vitais, e o nível de atuação psicoterapêutica tem que ser grupal e familiar. Neste ponto, a pessoa vai encontrar toda a culpa da sua trajetória, e aí precisamos vincular os problemas dela com o seu entorno. Então, terapia familiar e de grupo fomentados pela interação. Temos que estar atentos ao que impede o relacionamento entre as pessoas e promover esses relacionamentos.

Com aproximadamente 6 meses de tratamento, confrontamos a pessoa em terapia individual, precisamos estar atentos aos detalhes da vida dela. Aos 9 meses , mais ou menos, poderemos chegar ao “buraco da agulha”, como dizia Bernard Lievegoed (psiquiatra e psicoterapeuta holandês) ao momento de compressão máxima, aonde somente as forças do Eu podem atravessar. Essa é a maior crise de um tratamento de adicção. Aí, o paciente pode querer voltar atrás, fugir, porque não conhece as forças do seu Eu. Assim, com uma mão confrontamos, e com a outra , sustentamos. Temos a esperança profunda de que o paciente irá atravessar o buraco. Se isso acontecer, ele tem a dura percepção da própria consciência.

A ultima etapa é centrada na construção de um projeto de vida sustentável, aonde as crises estejam integradas à vida.

Palestra proferida por Adriana Masieri

Jornada de Psicologia Clinica e Antroposofia

19.05.2012      São Paulo.Brasil

Published in: on 28/08/2012 at 7:30 p08  Deixe um comentário  

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