Desenvolvendo a Fé em si mesmo

 

Capítulo IV

No próximo exemplo, nós focalizaremos seguros e investimentos.

Os centros da maioria das grandes cidades estão congestionados com edifícios e escritórios.Certamente algumas câmaras municipais lutaram contra a construção destes blocos, mas a tendência dificilmente pode ser detida. Bancos, companhias de seguro, multinacionais, organizações de negócios e cadeias de hotéis gostam de ter seus escritórios centrais agrupados na cidade.

Este tipo de centro de cidade tem a intenção de inspirar um senso de segurança, proteção e confiabilidade.

Entre as sólidas paredes da ordem estabelecida, todos deveriam ser capazes de se sentir livres.

Ou são estes mesmos prédios expressões da burocracia e tecnocracia que estão sufocando o homem livre ?

Examinemos que tipo de dinheiro os ergueu. Não é tão simples descobrir porque muito está camuflado no mundo financeiro. Mas em muitos casos, a trilha conduz através de companhias de desenvolvimento, consórcios de investimentos e similares, para instituições que atuam como investidores.

Por trás destes estão os prêmios de seguro de milhões de indivíduos – todos esperando que suas apólices lhes comprem segurança, independência e, em última instância, liberdade.

Isto não é uma grande ilusão ? Talvez possamos descobrir examinando a história dos seguros.

Na Europa, antes de 1600, eles tinham quase que exclusivamente o caráter de ajuda mútua. Em pequenas comunidades havia um direito costumeiro de receber ajuda. Se alguém tivesse tido um incêndio, por exemplo, poderia circular com uma carta, reconhecida pelas autoridades, descrevendo sua situação e com esta coletar dinheiro para restaurar sua casa queimada.

É claro que as pessoas contribuíam generosamente, sabendo que em seu próprio momento de necessidade poderiam contar com os outros para uma contribuição.

Com o crédito a idéia era a mesma. Nenhum juro era solicitado, assim se A emprestava dinheiro para B – livre de juros – B estava sob a obrigação moral de emprestar para A, se ele viesse a precisar.

O cuidado com os idosos era uma responsabilidade pessoal direta.

Os pais iriam educar e cuidar de suas crianças e esperavam que os filhos os assistissem na sua velhice.

Quanto mais as pessoas se tornavam individualizadas e emancipadas, tanto mais esta dependência mútua era sentida como empecilho.

As pessoas desejavam se sentir livres, sozinhas e independentes.

Esta necessidade foi satisfeita pelo prêmio do seguro e pelos juros.

B tendo obtido crédito de A, paga juros para anular qualquer obrigação de ajuda a A quando ele necessitar. Mais tarde, emprestar a juros foi institucionalizado e estruturado pelos bancos. Isto é o mesmo que acontece sob o sistema de seguros : pagando um prêmio para uma companhia, eu estou assegurado do meu direito de assistência se algo vier a acontecer.

A Companhia tem a obrigação de me ajudar. A ajuda mútua foi transformada em oficial, anônima e, podemos acrescentar, comercializada.

Eu compro segurança, eu não preciso contar com os outros, eu tenho minha apólice e minha segurança é estipulada nela.

O enfraquecimento de vínculos sociais com o aparecimento de prêmio e juros foi de fundamental importância para o crescimento da industria ocidental.

Mas a pergunta é : aonde isto conduziu ?

Olhando para os seguros em particular, vemos 3 fenômenos.

Primeiro, gradualmente, vê-se que comprar segurança e assim se tornar independente de outras pessoas é pura ilusão. A dependência dos vizinhos é substituída por uma dependência impessoal das gigantescas companhias burocráticas que têm os clientes na palma da mão através de condições camufladas no verso das apólices.

Além disto, uma inflação galopante torna ridículo o sentimento de segurança. E para coroar tudo isto – se quando eu me aposentar não houver ninguém que queira fazer algo por mim, nenhuma das cláusulas na minha apólice me servirá.

Em segundo lugar, há uma grande deterioração no caráter dos seguros. Sobretudo na América, há o crescente hábito dos pacientes de processarem médicos pois um certo tratamento deveria ter sido efetuado de forma diferente, ou melhor, pois eles foram prejudicados de uma ou outra forma ( perda de rendimento, perda de beleza e assim por diante ).

As indenizações podem atingir centenas de milhares de dólares – se não mais. Mas isto por sua vez pode ser prevenido com seguros . O prêmio, é claro, tem de ser coberto pelos honorários médicos. Em algumas cidades americanas isto levou médicos a deixarem suas profissões ou aderirem à greve, assim todo cuidado médico nas cidades esteve ameaçado.

Este mal vai mais além. Donos de carros estacionados, árvores ou cercas, por exemplo, podem subitamente se deparar com enormes processos, porque um advogado esperto sabe como tornar o dono de uma cerca responsável por um acidente.

Uma terceira consideração nos faz retornar aonde iniciamos. Os gastos com seguros conduzem a um vasto acúmulo de capital que precisa ser reinvestido. Investidores institucionais não são responsáveis pelos indivíduos que pagaram os prêmios ; e os donos de apólices apenas estão interessados no total que por direito irão receber.

Assim vemos que um processo quase automático surge no qual somas inimagináveis são investidas para objetivos e projetos que tendem apenas a fortalecer o mundo da indústria tecnológica, ou também pode ser dito, que mostra o resultado final de um desenvolvimento que descrevemos como enfraquecimento dos vínculos sociais, uma atomização dos padrões sociais.

Se tentarmos agora, com esta imagem do centro de cidade moderna e tudo o mais que – através de investidores institucionais – jazem atrás dela em termos de ilusões de segurança e aparente independência, nós podemos perguntar : que qualidade, que fraqueza, o que há em nós mesmos que dá margem a este desenvolvimento ?

Procurando uma resposta a esta questão, uma idéia prevalece – a de fé ou confiança.

Confiança é um poder que temos que desenvolver de novo, desde a base.

É uma qualidade constantemente desacreditada. Uma confiança traída é uma experiência profundamente dolorosa para o homem atual.

Com a dissolução da anterior, tradicional e instintiva relação consangüínea, um homem moderno, livremente responsável, precisa construir seu relacionamento de Eu para Eu com outros homens a partir de um poder inteiramente novo.

Uma forte confiança pode aparecer como fé na evolução, nos semelhantes, no destino, em si mesmo. Melhor dizendo,ela tem de ser conquistada, contra todo o tipo de resistência. Parece que todo desenvolvimento social existe para minar a confiança ou pelo menos para torná-la muito difícil.

Parece que o planejamento social está cada vez mais baseado na desconfiança e portanto tem que ser cercado antecipadamente com controles e regulamentos de segurança.

Mas é interessante que o avanço social torna possível, e mesmo necessário, que o poder da confiança seja exercitado em toda parte.

A divisão do trabalho e a dependência mútua que ela acarreta na vida econômica são tão complexas que nem tudo pode ser prescrito ou antecipado e portanto assegurado.

Nós precisamos aprender a construir confiança.

Na organização de novos empreendimentos coletivos, por exemplo entre produtores, intermediários e consumidores, ou entre pacientes, médicos , terapeutas, numa associação médica, ou em escolas, uma grande oportunidade se abre para o crescimento deste poder.

E é interessante que mais e mais pessoas estão procurando justamente tais situações.

Se nós podemos enxergar o negócio de seguros engordando sobre a nossa própria incapacidade de confiança nas relações humanas, isto está destinado a se tornar um apelo cada vez mais forte para desenvolvermos esta força em nós mesmos.

 

“A Sociedade como reflexo do próprio interior”

  Lex Bos – cap. IV

Published in: on 04/09/2009 at 7:30 p09  Deixe um comentário  

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