Manipulação através da fraqueza interior

Capítulo II

Nossa primeira tentativa pode ser feita com cinzentos blocos de apartamentos residenciais.

Se caminharmos em volta de um destes, perguntaremos perplexos :     Como pôde tal lugar ter sido construído ? Que tipo de mente poderia ter projetado isto ? A questão é não se deixar levar por sentimentos vagos como esses, que sobretudo tocam algo negativo em outras pessoas. Podemos tentar ao invés, fazendo uma retrospectiva do dia, reduzir a experiência a uma figura, uma imagem. Talvez apareça um tipo de animal cinzento e anônimo, cuja principal característica é uma falta de imaginação.

Aí então eu viro e olho para dentro, e projeto uma luz sobre o meu próprio mundo pessoal.

E talvez, subitamente, comece a perceber que a maneira como eu passei meus fins de semana ou feriados, nos últimos anos, foi igualmente descolorida e sem imaginação. Uma tediosa série de blocos de fins de semana ! A mesma escada…lavar o carro no sábado…a mesma varanda…jogo de cartas à noite…o mesmo pequeno corredor…dormir até tarde…ir à igreja…a mesma sala de estar com a tv no mesmo canto…ver futebol na tv à tarde.

Quem é o arquiteto desses enfadonhos e cinzentos blocos de fins de semana ? Não poderia esta parte de minha própria natureza ter projetado estas monótonas moradias ? Se eu fosse tentar dar vida aos fins de semana, dar algum colorido e variedade à minha cinzenta insipidez interior, não libertaria eu uma parte do ser que se apossa de mim através daqueles blocos residenciais?

Outro exemplo : em 1974 a Anistia Internacional chamou a atenção do mundo para a tortura. Você ouve os relatos e lê o que as testemunhas contam com um sentimento de repugnância total. Como é possível um homem fazer isto ao outro ? Nós tendemos a dar as costas ou ficar revoltados. Entretanto, também é razoável refletirmos sobre a questão e perguntarnos : o que realmente está acontecendo ? Certamente o fenômeno da tortura pode ser caracterizado de muitas maneiras diferentes, mas um determinado aspecto está sempre presente: uma pessoa está usando outra como uma coisa, uma ferramenta, um meio para um fim. Seu próprio fim. O objetivo é sempre sagrado ! A segurança nacional, o sucesso da revolução, vencer a guerra, erradicar um mal e assim por diante. Em vista do objetivo, quaisquer meios são válidos para obter informações ou, por outro lado, para garantir o silêncio.

Uma vez que eu tenha encontrado esta chave – o uso mecânico de outra pessoa – eu posso usá-la para olhar para dentro do meu próprio modo de vida.

Não há, às vezes, portas no meu comportamento – pequenas mas do mesmo tipo – nas quais esta chave serviria ? Parece realmente haver algumas. Saindo do posto de gasolina por exemplo, eu me flagro de ter tratado o empregado exatamente como uma ferramenta. Eu não olhei para ele. Eu só lhe entreguei a chave automaticamente e até lhe dei o dinheiro sem pensar. Eu não tenho mais a menos idéia de como ele era, o que disse ou o que fez. Em resumo, para mim ele foi simplesmente uma extensão da bomba de gasolina.

Eu não tenho que me sentir indevidamente culpado sobre isto, porque com certeza eu estava a caminho de uma importante reunião e além do mais, arredondei a quantia bem liberalmente.

E onde se vai parar, se você tiver de olhar cada atendente de posto, moça de café, carteiro ou quem quer que seja, profundamente em seus olhos azuis para que se recorde à noite de como eles eram ?

Ou será que, se milhões de pessoas se tratam mecanicamente desta maneira inocente, não se formará uma base para que centenas de milhares o façam de forma um pouco menos inocente – influenciando o consumidor por exemplo .

E assim novamente dando condições a milhares de fazer uso de outros para seus próprios fins, através de meios realmente dúbios ? Finalmente, talvez seja possível para centenas pressionar outras pessoas de forma bastante brutal. Uma espécie de pirâmide é construída com a mesma substância imoral. Embaixo, muitos, numa solução diluída : em cima, uns poucos, mas concentrados. Desta maneira nos deparamos com o torturador dentro de nós.

Não é nenhum demérito para a importância do trabalho da Anistia perguntar : não poderíamos, vencendo este torturador potencial em nós mesmos, contribuir com algo para a superação do problema ?

Como um exemplo adicional, a maioria de nós sabe que milhões de cópias dos jornais sensacionalistas apresentam todo dia histórias de estupro e assassinato, escândalos sexuais, fraude, estelionato em larga escala, raptos forjados e assim por diante. Tais notícias são alimento para um tipo particular de sentimento e emoção. No momento em que sai o jornal desta manhã, há muito já foi consumido o alimento de ontem. Ficou um vazio e a alma está faminta por uma nova injeção. É como o dragão do conto de fadas, ao qual todo ano deve ser oferecida uma jovem donzela, caso contrário irromperá e destruirá toda a vizinhança. Todo dia o dragão amante de sensações dentro de nós exige cada vez mais alimento, cada vez mais freqüentemente.

Mas oi que significa isto ? É sem importância para o mundo à nossa volta ? São reais somente as ações ? E os sentimentos e pensamentos realmente não tem nenhum efeito ? Se milhões de pequenos dragões famintos estão todos clamando por uma jovem donzela, não haverá uma realmente obrigada a ser devorada ? Quando tantas pessoas estão ansiosamente aguardando o próximo assassinato – com “sincera” indignação moral – será que o desejo não criará um campo magnético potencial para atrair exatamente tal ação ? Muitos de nós pensarão que podemos resistir a um impulso deste tipo, mas a corrente da humanidade possui elos fracos. Haverá pessoas que por qualquer causa ( hereditariedade, impulso, destino ) estão predispostas a tal ação. Devemos então nos surpreender se eles sucumbem a uma pressão maciça que realmente exige isso deles ? Precisa haver material para a edição de amanhã. Nós podemos culpar o assassino ou o dono, mas nós mesmos não começamos isto e distribuímos o exemplar ?

Um exemplo final diz respeito ao poder. O tema do poder permeia toda discussão política e, cada vez mais, as análises da ciência social. Concentrações de poder se tornam mais e mais comuns. Toda fusão, todo aumento de tamanho toda ampliação da esfera de influência coloca poder nas mãos de grupos cada vez menores. Este é um processo perturbador. Como pode tanto poder estar concentrado em tão poucas mãos ?

Este sentimento nos leva a considerar no que implica realmente o poder. São os homens “de cima” tão poderosos de fato ? Ou há naquele nível a mais aguda forma de pressão, sujeição a um sistema e, em suma, de impotência ?

Eu sei que tal abordagem horroriza aqueles críticos da sociedade que querem todo poder solapado. Mas deveríamos tomar seriamente o que foi dito por um presidente e diretor da multinacional Shell. Indagado sobre como se sentia estando no topo de uma empresa tão influente,replicou:“ É como estar sentado nas costas de um enorme brontossauro e observar aonde ele está indo” !

Há um sinal mais convincente de impotência ? E novamente, onde encontramos isto em nós mesmos ?

Com esta pista de impotência, vamos dirigir a luz para dentro. Quão fortes somos em guiar nossas forças anímicas do pensar, sentir e querer ?

A melhor resposta reside num teste. Pegue um lápis – real ou imaginário – e decida pensar por cinco minutos em nada mais além do lápis. Uma seqüência clara e controlada de pensamentos que permaneçam relacionados com o lápis.

Descreva por exemplo, a forma, a cor, o que ele faz, os materiais e como é produzido. Depois disto, há diferentes tipos de lápis, a história do lápis, a derivação da palavra e assim por diante.

Qualquer um fazendo este exercício percebe quão pouco ele é senhor em sua própria morada do pensar. A cadeia de pensamentos é interrompida ou se quebra, as associações carregam você. Você se apanha pensando, não no lápis, mas no artigo que você quer escrever com ele, ou na caneta tinteiro que você ainda não mandou consertar…É uma sensação maravilhosa ser bem sucedido mesmo por dois minutos em manter total controle sobre a sua própria corrente de pensamentos. E se isto não acontece, você se envergonha de sua fraqueza…

Como é com o sentir ? Nós governamos nossos sentimentos ou eles nos governam ? Nós não podemos fazer aqui o que fizemos com os pensamentos, mas podemos nos observar em situações nas quais os sentimentos afloram. Nos conflitos, nos contratempos ou simplesmente se eu tiver um sucesso após o outro ; encontrando pessoas por quem eu tenho uma forte antipatia, ou aquelas que me agradam; em casos onde as pessoas ridicularizam coisas que para mim são sagradas, ou enfaticamente defendem algo no qual não vejo sentido algum. O que acontece com os meus sentimentos em tais momentos ? Será que eles, por um lado me reduzem ao desespero, profunda contrariedade ou dúvida paralisante ; ou por outro lado me levam à rebeldia, caloroso entusiasmo ou cega confiança ? Ou posso eu, sem me tornar indiferente, controlar os extremos e deixar meus sentimentos se tornarem um órgão sensitivo de percepção, possibiliatndo-me penetrar mais profundamente na realidade daquilo que me rodeia ? Nós podemos descobrir que não é fácil ser senhor em nossa própria morada emocional. Muito freqüentemente sentimentos ou emoções me arrasam. E então, eu tenho novamente o mesmo sentimento de impotência. (Mas, cuide-se para não ser levado a desistir dos exercícios pelo desespero !)

Finalmente, o querer. Se eu resolvo fazer uma ação, eu a executo ? Consigo, por assim dizer, mandar para baixo pensamentos definidos, de modo que através dos meus membros eles se tornem ação ? Para fazer isto como um exercício, devo escolher uma ação que nada do mundo exterior possa me impedir de executá-la. Porque isto torna muito fácil transferir a culpa para fatores externos. Não, eu devo escolher algo que ninguém possa me impedir de realizar. Por exemplo, ao levantar de manhã, decido que ás onze ou às três horas, mudarei meu lenço de um bolso para outro. Decididamente uma proposta bastante simples. Mas notar, dia após dia, como é difícil, quão pouco capaz se é de realizar precisamente tais atos simples, é vivenciar uma terceira esfera de fraqueza e nenhum senhor na morada do querer.

Estes exercícios são tomados do livro “ O conhecimento dos Mundos Superiores”, de Rudolf Steiner. Eles são três dentre os seis exercícios básicos que qualquer um trilhando um caminho interior de desenvolvimento precisa fazer continuamente, junto com outros exercícios de percepção, meditação e assim por diante.

Voltando ao fenômeno social do poder : vimos pessoas apanhadas de forma irremediável num sistema anônimo. Então, a que conduz o fato de encontrarmos em nós mesmos três fontes que são fundamentalmente fracas – onde nós não governamos nossa própria morada do pensar, sentir e querer ?

Se incontáveis pessoas têm esta fraqueza interior, não estarão elas criando um vácuo dentro da sociedade, propício para um sistema de poder se alojar e pensar por nós, brincar com nossos sentimentos e fazer uso da nossa vontade ?

Perceber tais centros de poder fora de nos deveria mover-nos a tentar elaborar uma saída para nossa própria impotência interior.

Nós agora vimos como fenômenos sociais estão ligados com nossos processos psíquicos e tentamos com os exemplos tirados das construções modernas, imprensa marrom, o uso da tortura e o mau uso do poder, mostrar como uma qualidade exterior pode ser encontrada dentro de nós. E vimos que com o seu reconhecimento, surge a possibilidade de transformá-la e assim contribuir com algo medicinal para sua existência social.

Nós agora continuaremos, partindo do mesmo ponto de vista da contemplação do fenômeno humano, considerando os fenômenos da inflação e crediário, seguros e investimentos, impostos e a indústria bélica.

                                                                   Em

 “A Sociedade como reflexo do próprio interior”

  Lex Bos – capítulo II

Published in: on 20/08/2009 at 7:30 p08  Deixe um comentário  

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